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António Vieira e os movimentos identitários

Sobre um protesto de estudantes de História contra quadros do padre Antônio Vieira e os limites da estratégia do "no platform".

O Gazeta do Povo e o Gazeta online, e provavelmente outros, noticiaram na semana passada uma manifestação realizada pelos estudantes do curso de História da Ufes. A repercussão persiste no Facebook. Em resumo: há duas décadas, diversos quadros que tematizam os feitos do jesuíta Antônio Vieira foram dispostos no corredor do IC3 — prédio que sedia os cursos de História, Letras e Filosofia, principalmente — e se por um lado as obras são homenagens à personalidade central do Barroco ibérico, o "imperador da língua portuguesa", como escreveu Fernando Pessoa, por outro lado, seu destaque naqueles corredores é excessivamente tributário às políticas de colonização. E para além disso, com perdão do poeta, não somos monarquistas. Segundo o que foi publicado, a celeuma se deu porque os alunos do curso de história, recusando prestar diária homenagem nos corredores ao padre jesuíta, cobriram as imagens com um pano preto.

Muita gente se manifestou contra o ato dos alunos. Como é de praxe, chamá-los de fascistas e censores foi o mínimo entre as graciosidades. Pelo menos um dos professores do Departamento de História manifestou publicamente apoio à manifestação e alinhamento com as estratégias defendidas pelos movimentos identitários — o texto pode ser encontrado no Facebook: "vivemos momentos de descolonização do pensamento e de crescimento da consciência étnica", "Antônio Vieira, como um representante do colonialismo, tinha uma posição ofensiva em relação aos negros e índios".

É notório que, segundo os movimentos identitários, o que está em jogo aqui (e nas estratégias de ação) é uma discussão sobre poder e reconhecimento. O que aprendemos nos últimos tempos na base do chicote e da reflexão crítica é que: 1) o poder se efetiva minando a experiência subjetiva primordial, o reconhecimento; 2) a linguagem (em seu sentido mais amplo) não é meramente veículo de comunicação ou representação da realidade, ela transmite valores, produz realidade e subjetividades. Assim, a linguagem é por excelência o palco das tensões políticas. Essas questões foram discutidas mais recentemente no livro de Francisco Bosco. Dito isso, a exposição dos quadros está longe de manifestar neutralidade, é antes parte de uma dinâmica de poder que reitera o não reconhecimento — neste caso das lutas identitárias negras e indígenas, especificamente.

Do ponto de vista teórico, a consciência da natureza da linguagem foi fundamental para a insurgência dos movimentos identitários no século XX porque a partir dessa nova compreensão chegamos à conclusão de que as práticas simbólicas naturalizadas como neutras são mantenedoras de relações sociais desiguais. Que estratégias são utilizadas a partir daí? Partindo dessas premissas, suas ações se baseiam em desestruturar o campo de ação criado pelo poder. Como? "No platform" tem sido a estratégia favorita. Só para relembrar alguns fatos recentes que usaram essa estratégia de desestabilização do poder, com maior ou menor eficácia: a problemática do racismo na obra de Monteiro Lobato, as marchinhas de carnaval acusadas de divulgar conteúdos preconceituosos, as exposições apontadas como blackface, e agora com Antônio Vieira.

Particularmente, estou de acordo com as bases fundamentais dos movimentos identitários, que veem como legítimo e necessário tensionar instituições no sentido de criar condições para equidade e justiça social, mas não vejo essa estratégia como promissora. Parto de uma refutação geral (1) e em seguida uma específica (2):

  1. Todo debate que tenha como foco discursos preconceituosos não pode ser destituído de autocrítica e, quando necessário, do questionamento sobre sua própria natureza cerceadora e punitivista. 2) Ao concluir seu texto de apoio aos alunos, escreve o professor do departamento de História da Ufes: "Me lembro dos protestos contra a comemoração da invasão da América pelos colonizadores. Os indígenas de Chiapas entraram em San Cristóbal de las Casas e derrubaram a estátua do conquistador e tudo que ela representava." Fica claro que a falsa simetria é uma comparação entre a derrubada da estátua do colonizador em San Cristóbal de las Casas e a manifestação contra Antônio Vieira nos corredores da Ufes, e supõe que os feitos e obras do "colonizador" e de Vieira devem ser lidos sob a mesma lente.

Sobre o primeiro ponto: os grupos que se autodeclaram de esquerda, quando optam por estratégias cerceadoras e punitivistas, colaboram com o clima de repressão e obscurantismo no qual já nos encontramos. Repito: as premissas dos movimentos identitários são desejáveis e necessárias, mas se algumas estratégias não forem reelaboradas, nos aproximamos justamente daquilo que mais repelimos.

Sobre o segundo ponto: se é verdade que existe um pano de fundo colonialista óbvio que aproxima o "colonizador" e Antônio Vieira, é verdade também que se faz mais do que nunca necessário analisar com atenção a obra do segundo. Em outras palavras: se quisermos discutir seriamente o século XVII, o projeto jesuíta na colonização do Brasil e suas consequências, a leitura de Antônio Vieira nunca foi tão urgente. Nesse sentido, é tão importante tirar Vieira do pedestal dos corredores da honraria quanto levá-lo para as salas de aula, a fim de que seus textos sejam lidos criticamente. A falsa simetria proposta pelo professor legitima a estratégia do "no platform" e confunde o que se deve ou não fazer com o padre.


Publicado no Jornal A Gazeta, janeiro de 2018.

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