A Casa da Água, de Antônio Olinto
Crítica literária sobre o romance de Antônio Olinto e a diáspora dos agudás entre a Bahia e o Golfo do Benin.
Antonio Olinto teve muitas ocupações na sua vida, foi jornalista, professor universitário, pesquisador, adido cultural, mas foi sobretudo escritor. Há um consenso entre os leitores de Olinto de que o romance A Casa da Água, publicado em 1969, é seu melhor livro de ficção. Nos anos 70, o livro teve alguns breves momentos de glória junto à crítica jornalística, foi imediatamente traduzido para o inglês, o francês e o espanhol, mas teve pouquíssima atenção da crítica universitária, e nenhuma importância no mercado editorial. As décadas seguintes ignoraram solenemente a obra.
Os mecanismos que regulam a permanência de uma obra na História da Literatura são muitos e são complexos. Se por um lado, toda obra de arte está necessariamente radicada em um tempo e um espaço, por outro lado, as condições sociais/intelectuais criadas com o passar do tempo oferecem novas perspectivas de compreensão daquela mesma obra. Assim, em virtude de um novo contexto, a obra se configura como uma nova obra. Essa "nova obra" pode ser melhor ou pior. Um exemplo: Machado de Assis publicou em 1899 Dom Casmurro, e durante os próximos 60 anos Capitu pode trair Bentinho sem que houvesse nenhuma interdição crítica. Em 1899, o romance era considerado uma boa obra. No entanto, em 1960, em função da consolidação dos estudos feministas, uma norte-americana colocou o adultério de Capitu sob suspeita. Iniciou-se assim uma nova fase de leitura da obra machadiana. Bentinho se transformou em um narrador não-confiável e o romance se transfigurou em uma obra muito melhor. O livro é mesmo? Sim e não.
Voltamos a Antonio Olinto: se A Casa da Água, nas últimas décadas, não escalou os píncaros do prestígio, talvez, sob certos aspectos, a revisão da obra aponte as qualidades em alta na bolsa de valores atual da História. A Casa da Água, que já era um bom livro, é hoje um livro melhor. Nada disso se deve à estrutura narrativa, que, diga-se de passagem, é também matéria de carpintaria, mas sem dúvida é o tema que está em evidência. Em suma, trata-se de uma narrativa transatlântica, entre o Brasil e a África Ocidental, que destaca as novas configurações de identidade dos africanos (e descendentes de africanos) que retornaram para África após o fim da escravidão, os chamados Agudás. Não fosse suficiente, a narrativa é centrada na vida de uma mulher cujas características estão muito distantes dos moldes de subserviência divulgados pela literatura romântica.
Pierre Verger, J. F. de Almeida Prado, Gilberto Freyre e Júlio Santana Braga escreveram antes sobre os Agudás, também chamados de Amarôs, os retornados; Alberto da Costa e Silva, Manuela Carneiro da Cunha, Milton Guran, e muitos outros, escreveram depois (ensaios, quase sempre), mas nenhum deles escreveu como Antonio Olinto: linhas claras e límpidas, com perfeito manejo de um ritmo ora marcado pelo corte abrupto das frases curtas, ora pelo fôlego das longas, pela constante construção de imagens fortes e definitivas e pela consciência de um narrador personagem que é também onisciente — por isso mesmo incomum, espécie de alter-ego do escritor.
O livro de Olinto começa com o périplo de uma família descendente de escravizados, são três mulheres (a avó, a mãe e a neta) que saem do Piauí, interior de Minas Gerais, em 1898, e chegam a Lagos, na Nigéria — passando por Juiz de Fora, Rio de Janeiro e Bahia. Ainá, nome africano de Catarina, a avó, sonha em retornar à terra de seus pais. E é sobretudo no continente africano que se desenvolvem as ações da narrativa. Mas o retorno cria contradições que nunca se diluem completamente no romance: a identidade e a diferença, as permanências e as rupturas, os modos de reconhecimento cultural e o choque, o sentimento de eterno estrangeiro que se sobrepõe aos modos de reconhecimento da terra — de um lado, o Brasil da diáspora, e de outro, uma África idealizada que não existe mais.
Acompanhamos durante 70 anos transcorridos no romance, de 1898 até 1968, a vida de Mariana, a neta de Ainá, protagonista do romance. Ao narrar a história de Mariana, e de uma centena de personagens que atravessam sua vida, Olinto nos revela a complexidade dos fluxos e refluxos culturais entre Brasil e as muitas Áfricas (ioruba, fon, hauçá), mas especialmente os desdobramentos políticos da colonização do Benin e da Nigéria. Um dos méritos da narrativa, além disso, é a sofisticada construção de uma personagem forte e centralizadora, que encontra maneiras de existir no exílio indelével. A partir de 1969, o universo de A Casa da Água continuou se expandindo na obra de Antonio Olinto e deu origem a mais dois livros que completam a chamada trilogia Alma Africana: O rei de Ketu e Trono de Vidro.
Publicado no Jornal A Gazeta, dezembro de 2017.