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Desmonte de programa de diplomacia cultural abala difusão da língua portuguesa

Como o Programa Leitorado Guimarães Rosa, criado em 1953, vem sendo silenciosamente esvaziado por cortes e omissão administrativa.

Autor sustenta que o Brasil vem enfraquecendo, sem alarde ou debate público, uma de suas políticas de internacionalização cultural mais antigas e bem-sucedidas, o Programa Leitorado Guimarães Rosa. Criado em 1953, o programa vem encolhendo em meio a cortes orçamentários, omissão administrativa e uma mudança de estratégia que prioriza estruturas visíveis, mas de menor capilaridade no exterior.

Poucos países construíram, ao longo do século 20, uma política de diplomacia cultural tão ampla e sistemática quanto o Brasil. Desde 1953, o Programa Leitorado Guimarães Rosa, antigo Programa Leitorado, tornou-se peça-chave na projeção internacional da língua portuguesa e da cultura brasileira, especialmente nos espaços universitários de maior prestígio. Segundo a Universidade de Heidelberg, em sete décadas, a rede alcançou 167 universidades em 68 países, formando especialistas e consolidando parcerias duradouras com centros acadêmicos de excelência.

Apesar da aparência de normalidade, o programa atravessa um processo contínuo e silencioso de retração. A ausência de novos editais desde 2023 já sinalizava essa inflexão. Soma-se a isso a interrupção de uma prática até então recorrente: os contratos dos leitores, com duração inicial de dois anos e possibilidade de renovação por mais dois, vinham sendo prorrogados de modo praticamente automático. Este padrão, no entanto, foi rompido. Já está confirmada neste ano a descontinuidade dos postos em instituições de referência, como as universidades Sorbonne Nouvelle (França), Nacional de Assunção (Paraguai), da República (Uruguai), Nacional Timor Lorosa'e (Timor-Leste) e de Cabo Verde. São perdas significativas, que não apenas reduzem a presença internacional do Brasil, mas desfazem laços institucionais construídos ao longo de décadas.

A expectativa, sobretudo após o congelamento de recursos em maio, é que outros postos com contratos prestes a vencer também não sejam renovados. O recuo, contudo, não decorre de uma revisão estratégica transparente, mas de cortes orçamentários, omissões administrativas e desmonte de instâncias normativas. Mais do que um declínio numérico, chama atenção o padrão de retração geográfica — países que antes abrigavam múltiplos postos passaram a contar com apenas um ou nenhum, e instituições históricas, como a Universidade de Buenos Aires, perderam seus postos sem previsão de reposição. O que se rompe, nesse processo, são redes cultivadas por décadas, cuja reconstrução exige tempo, investimento e vontade política.

O contraste com o cenário global é marcante. Enquanto o Brasil recua, outros países expandem suas estratégias de diplomacia cultural: a China, com o Instituto Confúcio, atua em mais de 500 locais; a Espanha, com o Instituto Cervantes, está presente em aproximadamente 50 países; a Alemanha, com o Goethe-Institut, em torno de uma centena. Todos compreendem a cultura como vetor estratégico de influência. Já o Brasil, detentor de amplo capital simbólico, parece escolher uma retirada sem alarde.

A história do Programa Leitorado confunde-se com a própria constituição da diplomacia cultural brasileira. Criado em 1953, em meio à modernização do Itamaraty, o programa refletia a convicção de que a projeção internacional do Brasil dependia também da circulação qualificada de sua língua, literatura e cultura. Seus primeiros representantes foram intelectuais de prestígio — como Sérgio Buarque de Holanda, Celso Cunha e Josué Montello — que atuavam como professores, tradutores e articuladores de redes acadêmicas duradouras. O marco legal da função foi estabelecido apenas em 2006, com uma portaria que definiu responsabilidades: o Itamaraty negocia os postos e garante recursos, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) seleciona os candidatos e as universidades estrangeiras acolhem os aprovados. Esse arranjo institucional viabilizou uma rede de cooperação cultural ampla e capilar. Diferentemente dos centros culturais tradicionais, os leitores atuam dentro das universidades, influenciando tanto a formação quanto a pesquisa. Sua ação, embora discreta, visa mais do que difundir conteúdos — constrói presença.

A criação do IGR (Instituto Guimarães Rosa) em 2022 foi apresentada como modernização da política cultural externa. Ao substituir o antigo Departamento Cultural e Educacional, o IGR passou a coordenar os 24 centros culturais brasileiros (agora chamados IGRs) e, ao menos formalmente, incorporou os núcleos de estudos brasileiros e os leitorados. Inspirada em modelos como os institutos Camões, Goethe e Cervantes, a proposta oficial prometia identidade visual unificada, sinergia institucional e uso racional de recursos. Na prática, no entanto, consolidou-se a centralização de esforços nos centros culturais, com crescente marginalização dos leitorados.

Essa inflexão implicou redirecionamento de verbas, atenção e planejamento para as estruturas sob controle direto do Itamaraty, em detrimento dos postos instalados em universidades estrangeiras. Mais do que uma decisão administrativa, trata-se de uma concepção limitada da função dos leitorados. Enquanto os centros culturais operam como vitrines — voltados ao grande público, com cursos, eventos e atividades comemorativas —, os leitorados atuam de forma mais profunda e contínua: influenciam currículos, orientam pesquisas, criam vínculos acadêmicos duradouros. Sua inserção é menos visível, mas estrutural. Ao priorizar a visibilidade imediata em detrimento da presença formativa, o Estado brasileiro reconfigura sua diplomacia cultural. A substituição não é apenas funcional, é paradigmática. Trata-se de uma mudança na forma como o Brasil escolhe se projetar: não apenas onde se fala sobre o país, mas com que profundidade, duração e interlocução.

Enquanto o Programa Leitorado encolhe em silêncio, a internacionalização cultural brasileira avança de forma irregular por outras vias estatais. Nos últimos anos, diferentes ministérios passaram a ocupar esse campo com iniciativas próprias, contribuindo, ainda que involuntariamente, para um cenário de fragmentação institucional. O Ministério da Igualdade Racial, por exemplo, lançou o programa Caminhos Amefricanos, voltado a intercâmbios com países africanos e latino-americanos. O Ministério da Educação, por sua vez, tem ampliado significativamente o PrInt (Programa Institucional de Internacionalização), estabelecendo novas parcerias acadêmicas no exterior. Essa diversidade revela uma sensibilidade crescente à pluralidade de agendas, mas se dá em um cenário sem articulação estratégica. As ações se multiplicam sem coordenação, gerando dispersão de recursos, sobreposição de esforços e ausência de uma identidade clara para a política cultural externa brasileira. Falta, até o momento, uma instância interministerial que integre esses programas sob um horizonte comum. O conceito de soft power, formulado por Joseph Nye, baseia-se justamente na influência simbólica, na legitimidade e na capacidade de persuasão — o que exige continuidade, densidade institucional e coerência narrativa.

O caso brasileiro, porém, expõe os riscos da falta de convergência. O Ministério da Igualdade Racial investe em pautas afro-diaspóricas, o da Educação promove a internacionalização acadêmica e o Itamaraty mantém sua própria lógica nos centros culturais e no Programa Leitorado. Cada frente tem mérito, mas a ausência de diálogo entre elas compromete a eficácia do conjunto. Em vez de sinergia, há justaposição e perda de potência.

O encolhimento do Programa Leitorado em número, alcance e estrutura produz efeitos que extrapolam a contabilidade das vagas extintas. Reduz-se, antes de tudo, a visibilidade do Brasil no ambiente universitário internacional. Instituições que, por décadas, contaram com docentes brasileiros perdem, com sua partida, mais do que um quadro — perdem uma referência intelectual, um elo ativo com o pensamento crítico produzido no país, um vetor de diálogo e colaboração.

Mas o impacto vai além da perda de contato imediato. Um leitor não é apenas um professor no exterior. Ele funciona como articulador de redes, ponto de encontro entre universidades brasileiras e estrangeiras, mediador de intercâmbios, incentivador de parcerias, facilitador de traduções e projetos conjuntos. Quando esse circuito se interrompe, o que se dissolve não é apenas a presença de um indivíduo, mas um ecossistema. Redes acadêmicas, ao contrário de contratos, não se recompõem com facilidade — muitas vezes, levam anos ou uma geração inteira para serem reativadas.

A substituição de uma diplomacia cultural articulada, descentralizada e contínua por ações centralizadas em centros culturais representa também um rebaixamento qualitativo. Mesmo que bem equipadas, essas instituições atingem sobretudo públicos já engajados com a cultura brasileira. O leitor, ao contrário, atua na fricção — é no atrito entre culturas que ele desperta interesse, transforma currículos, forma pesquisadores e multiplica interlocutores.

Há ainda o que não se mede, mas se intui: o efeito simbólico. O retraimento brasileiro das universidades estrangeiras comunica algo mais profundo do que uma mera reorganização administrativa. Comunica desinteresse. Em um mundo em que a influência cultural é cada vez mais disputada — onde China, Alemanha, França e Espanha investem com método e escala —, o silêncio brasileiro não é neutro. É uma escolha — uma escolha cara.

O que torna o cenário atual do Programa Leitorado particularmente inquietante não é apenas sua retração, mas o modo como ela se dá: não por decisão política formal ou deliberação transparente, mas por uma sucessão de omissões, cortes, supressão de editais, silêncios institucionais e abandono progressivo das normas que o sustentavam. Trata-se de um desmonte sem decreto, mas com método. Nenhum encerramento foi oficialmente anunciado. Em vez disso, assiste-se a um esvaziamento gradual: menos vagas, menos editais, menos recursos, menos escuta. A ausência de chamadas públicas em períodos-chave, a inviabilização de projetos culturais propostos pelos leitores e a crescente opacidade na interlocução com Brasília compõem uma coreografia silenciosa de desativação. Essa forma de desmonte é especialmente insidiosa porque, ao evitar rupturas formais, neutraliza os mecanismos clássicos de resistência. Extinguir provoca reação; deixar definhar desmobiliza. Quando o abandono se impõe como normalidade, o dissenso chega tarde ou já encontra o terreno minado.

A descontinuidade do Leitorado Guimarães Rosa aponta, assim, para uma inflexão mais profunda na política cultural externa do Estado brasileiro. Em um cenário global marcado por disputas simbólicas intensas, deixar de ocupar certos espaços equivale a cedê-los. O Brasil, com sua cultura plural, língua de alcance continental, diplomacia respeitada e produção acadêmica em ascensão, possui ativos estratégicos importantes, mas nenhum deles se converte, por si só, em presença ou prestígio. Projeção internacional exige continuidade, investimento e visão. Escolher apagar presenças é também escolher o que o mundo pode ou não saber sobre nós.


Publicado na Folha de São Paulo (Ilustríssima), 15 de julho de 2025.