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artigo2016

A esquerda explicada aos nossos pais

Uma carta aberta, em tom de conversa de almoço em família, sobre por que a distinção entre esquerda e direita continua relevante.

Pais, vocês sabem, todas as vezes que colocamos política em pauta, em geral quando sentamos para almoçar, acabamos silenciados pela mútua incompreensão. Não fosse a comida maravilhosa e os comentários redentores, permaneceríamos calados. Aparentemente o tempero dissolve o que parece intolerância e seguimos. Mas gostaria de voltar ao assunto.

As vezes que conversamos sobre tendências políticas os argumentos tendem a seguir dois caminhos. O primeiro: vocês afirmam que não faz sentido, hoje, distinguir esquerda e direita porque os ideais políticos se tornaram subservientes à lógica de governabilidade. O segundo: se ainda fizer sentido diferenciar direita e esquerda, o que define a segunda é sua exclusiva preocupação com o assistencialismo populista que não percebe a classe média como maior empregadora do país, portanto como motor de desenvolvimento.

Quero que vocês saibam que a distinção entre esquerda e direita continua sendo absolutamente relevante. A diferença está no quanto uma e outra estão dispostas a arriscar em prol da igualdade social. Esse esvaziamento que vocês propõem serve para nos resignarmos ao modelo de vida social que abandona o debate político, mas o que queremos é o contrário. Ao longo deste brevíssimo texto, mostrarei a vocês o que segundo nosso ponto de vista é inegociável.

O pensamento mais decisivo para demarcar a esquerda é a defesa radical do igualitarismo e da soberania popular. A luta contra a desigualdade social e econômica é nossa principal ação política. Entendemos que as pessoas recebem heranças muito diversas nesse país e isso, na maioria das vezes, define seu futuro. A herança decreta a desigualdade social no nascimento. Na maternidade sabemos que um sujeito conhecerá o mundo, cursará uma universidade federal, falará diferentes idiomas, e o outro não. Vocês podem argumentar que existem exceções e tudo depende do esforço individual. Mas queremos enfatizar que não estamos interessados na exceção, porque seria perpetuar a diferença social. Queremos essas possibilidades de vida estendidas a todas as classes. Quanto ao esforço individual, sem dúvida valorizamos ele também. Mas em uma sociedade como a nossa (que vem de quatrocentos anos de escravidão e vinte e um anos de ditadura), o épico familiar da classe média, ou seja, a história de dificuldades que vocês passaram para chegar até aqui, não explica inteiramente como nossa família se tornou abastada, escolarizada e gourmetizada. Voltamos à questão de herança (de bens, de cultura, de valores, de cor de pele).

Se aplicarmos essa lógica ao mercado de trabalho, a livre concorrência e a meritocracia não funcionam bem. É aquela velha história, em uma corrida, as pessoas precisam sair do mesmo lugar para terem as mesmas chances. Acreditamos em um Estado que regule isso, porque a mão invisível que os senhores já mencionaram vai sempre sacanear alguém. O atual governo brasileiro ainda está distante do que queremos, mas, sob alguns poucos aspectos, implantou políticas públicas de esquerda. As ações que vocês chamam de "puro populismo" são maneiras de colocar esse sujeito historicamente aquém da linha de saída em pé de igualdade. As cotas na universidade ou o bolsa família, por exemplo.

As demandas por melhorias, por emancipação e por representatividade estão postas, mas ainda temos um sistema muito alheio a tudo isso. Nesse sentido, os movimentos civis pelos direitos de minorias são importantíssimos. Os mandatos políticos foram durante muito tempo um privilégio de classe, de gênero e de cor, em grande medida ainda são, e representaram seus próprios interesses, o que é triste. Nosso desejo é eleger representantes de outras cores, de outros gêneros e principalmente de outras classes. Tudo isso, para garantir a soberania do povo.

Vocês insistem muitas vezes que a esquerda pensa muito em angariar votos de pobres, mas que deveria investir no progresso econômico para gerar empregos. Pode parecer estranho, mas não acreditamos no progresso a qualquer custo. Progresso não é sinônimo de acumulação. O governo que temos hoje tentou diminuir a desigualdade social sem ameaçar o grande capital internacional, o grande capital nacional e os grandes latifundiários. Diante desse pacto, não foi possível distribuir renda, tentaram distribuir, então, a riqueza a custo do esgotamento do meio ambiente — o "progresso". Foi um erro. O Brasil está sendo forçado a se repensar como nação e as pessoas como vocês que colocam a camisa da seleção e saem às ruas se dizendo patriotas vão ter que pensar em um país mais amplo, um país de todos, que redistribua renda e não riqueza.

O atual governo e a direita que vocês defendem têm um modelo de desenvolvimento similar que equaliza consumo à cidadania, mas nós discordamos. O projeto da esquerda que acreditamos faz oposição a um modelo de vida baseado no consumo e cria fissuras em um sistema que planta frustração e infelicidade. Gostaríamos que vocês entendessem que as necessidades básicas devem ser garantidas pelo Estado. Por isso, a desigualdade só pode ser realmente erradicada por meio da institucionalização de políticas estatais, de outra forma elas nunca terão a amplitude necessária para funcionar. Portanto a esquerda não pode abrir mão da capacidade de intervenção do Estado, como vocês gostariam. O Brasil é um dos dez países com maior desigualdade social do planeta e seus conflitos de classe ainda são botados às sombras, mas insistiremos em trazê-los ao debate público.


Publicado no Jornal A Gazeta, março de 2016.

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