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artigo2018

Futebol, Copa e Nelson Rodrigues

Sobre o futebol como fenômeno político emancipatório, contra a tentativa da direita de se apropriar da seleção.

"A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana." Foi a frase de Nelson Rodrigues que me abriu os olhos para a compreensão do futebol como um fenômeno complexo e necessário na aventura de entender o Brasil. Fui flamenguista desde o momento em que botei o nariz para fora da barriga da minha mãe, mas me desquitei do clube e do futebol na adolescência por pura fantasia: em algum momento, pensei (e não estava sozinho) que o futebol fosse inconciliável com uma ideologia de esquerda. A partir de uma leitura reducionista e até vulgar do país, do futebol e do marxismo, enunciávamos aos quatro cantos que, no Brasil, "o futebol é o ópio do povo", ingrediente fundamental na manutenção dos privilégios de classe. Ledo engano. Vivo atualmente um reencontro com o futebol mediado pelas crônicas de Tostão, pelos comentários de Juca Kfouri e pelos ensaios de José Miguel Wisnik, que têm me conduzido a conclusões que se resumem na seguinte frase: o futebol é político no sentido mais criativo e potente. E tem mais: é a possibilidade de elaborar as diferenças (nacionais, religiosas, raciais, etc.), em termos de pacto civilizatório, como competição simbólica — o dado mais emancipatório desse esporte.

Em outras palavras, ainda que vivamos em diversos aspectos retrocessos morais que beiram a barbárie, o esporte mais popular do mundo elabora simbolicamente rivalidades (totêmicas, tribais, nacionais) reiterando pactos de convivência sistematizados em regras que pressupõem igualdade. E isso é no mínimo de grande interesse. Nesse sentido, como já avaliou o sociólogo Norbert Elias, o futebol é a garantia civilizatória ou, pelo menos, uma espécie de termômetro do pacto civilizatório que se opõe veementemente ao fascismo.

Ainda que a Família Tradicional Brasileira tenha, ao longo dessa década, raptado a bandeira e a camisa da seleção para desfilar nas ruas e nas sacadas de panela na mão, pedir intervenção militar, os bons costumes (?), e outros micos, a gente sabe que quem ganhou a Copa de 70 não foi Médici, foi Pelé, e hoje quem entrará em campo não será Michel Temer ou essa gente careta e covarde — quem pisa o gramado é a garotada que fez desse esporte uma possibilidade de furar o destino da aniquilação, do extermínio, da desigualdade social, transformando a festa em fresta. Bom jogo para todos nós.


Publicado no Jornal A Gazeta, julho de 2018.

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