Liberdade, liberdade: sobre a abolição da escravatura nos periódicos capixabas
Uma pesquisa de arquivo sobre como os jornais capixabas do século XIX discutiram o fim do trabalho escravo e sua substituição por imigrantes.
Quem se aventurar nos arquivos da Biblioteca Nacional a fim de percorrer os periódicos e documentos da história do Brasil, e particularmente do Espírito Santo, vai se deparar com um volume de materiais que atestam a conhecida frase atribuída a Cervantes: "História, êmula do tempo, depósito das ações, testemunho do passado, exemplo do presente, advertência do futuro". Posto que, por mais discutível, trata-se hoje de uma efeméride, eis um ou outro achado dos corredores da história capixaba que valem uma análise muito mais profícua sobre o tema. Por hora, um comentário.
Entre os importantes jornais espírito-santenses (como se dizia do gentílico) do século XIX destaca-se O Cachoeirano. Destaque, sem dúvida, tributário à qualidade dos artigos publicados pelo seu editor-chefe Bernardo Horta de Araújo. Entre janeiro e abril de 1881, um longo texto seriado chama a atenção porque, justamente, adverte para o futuro, isto é, o nosso presente. O texto é intitulado "Elemento servil" e tem como tema o fim do trabalho escravo. Duas questões, especificamente: 1) o autor destaca a necessidade de um processo não abrupto de abolição; 2) a aceleração do projeto de imigração de colonos europeus a fim de substituir a mão de obra escrava. Um dos parágrafos da primeira parte do artigo, de 16 de janeiro de 1881, resume a problemática: "Em política deve ser aceita a máxima da filosofia positiva: não se deve demolir sem ter os meios de reconstruir."
O texto aponta a imigração de chineses como uma possibilidade de "reconstrução", isto é, da substituição da mão de obra escrava discutida no congresso, e faz uma ressalva: "Esta imigração só será vantajosa se conseguirmos verdadeiros chineses agricultores e não os coolies e outros vagabundos das praias do celeste império, dos quais os Estados Unidos querem se livrar". Percebendo as dificuldades da imigração chinesa, o autor volta sua atenção ao europeu — esses, sim, uma possibilidade real — e elenca aquele que seria o colono modelo: "o pai de família, que vê que a luta pela vida torna-se difícil no meio da densa população de seu país natal; que vê que seu pequeno terreno, se o tem, não lhe dá mais sustento para a numerosa família, ou outro que vive descontente no seu país, com seus vizinhos, com a religião, com a política (…); enfim, o homem que pensa no futuro, que tem alguma instrução e alguns bens e que, vendendo este pouco, traz o produto para cá, para estabelecer-se em nossas matas, comprando terras nacionais por uma bagatela onde pode, depois do primeiro ano de privações, colher duas vezes por ano".
Uma digressão necessária: o progressivo fim do trabalho escravo (até à abolição assinada pela princesa regente) não se dá pela tomada de consciência do brasileiro proprietário, como divulgaram os jornais da época — especialmente ao replicar uma série de artigos de Joaquim Nabuco. Em função do fim do tráfico, o número de escravos a partir de 1850 cai de modo vertiginoso, os preços sobem e todo pequeno proprietário de escravos percebe que é mais vantajoso vendê-lo, por exemplo, e comprar um sobrado. Trata-se de uma manobra econômica dissimulada muitas vezes com o discurso abolicionista em voga. Prova disso é que o grande problema nacional foi substituir o escravo pelo imigrante europeu. Veremos ao longo da década de oitenta a troca dos anúncios de compra e aluguel de escravos por anúncios de trabalho assalariado oferecidos a estrangeiros, sujeitos de "boa aparência" e estudados.
Há exatos 129 anos é assinada a lei que extingue a escravidão no Brasil; o povo negro alforriado após a abolição não tem terra e não tem trabalho, porque passa a ser desprezado em função dos imigrantes. O projeto de escravidão acaba e dá-se início ao projeto de construção de uma nação — é o que os jornais divulgam. Hosana? Não, hoje não.
Publicado no Jornal A Gazeta, maio de 2017.