Milagre, novo álbum do Orizzonti
Sobre o álbum-tributo a Milton Nascimento do grupo instrumental capixaba Orizzonti, aberto por uma participação do maestro Letieres Leite.
"Milton é um ser ambulante de claves precisas e preciosas. Milton traz para a música brasileira todo valor harmônico que não tinha antes. Ele construiu um lugar que só ele tem a chave. Sua música mudou profundamente não só a canção, mas a música instrumental brasileira. Tem música minha que é Milton Nascimento o tempo todo passando pra cá e pra lá." As palavras são do maestro Letieres Leite e foram ditas em um workshop online recentemente disponibilizado no YouTube. Não chega a ser uma novidade: a experiência de audição da música de Milton Nascimento é transcendental. Esse efeito é tributário, certamente, a um inconfundível estilo vocal. Em termos técnicos, estamos falando de um timbre muitas vezes flexível, de uma extensão vocal pouco vista e de uma capacidade surpreendente de variação no interior da estrutura tonal e rítmica. É paradoxal que a música de Milton Nascimento, e em particular a sua voz, soe ao mesmo tempo sublime, estranha e natural. Há um caráter de não resolução e de suspensão na música do Bituca e até de estranhamento, mas é sempre um estranho-familiar. Esse suposto oxímoro da música miltoniana (ou bituquiana, como quiser) aproxima sua obra de uma tradição tonal europeia de um modo muito peculiar, com modalismos e acordes suspensos. Façam a experiência de ouvir "Ol' Man River", música de Jerome Kern e Oscar Hammerstein, no álbum Nascimento, de 1997.
O alongamento das notas e os elementos inesperados conduzem a caminhos surpreendentes. Há uma liberdade — não essa liberdade individual que vociferam por aí de boca cheia —, mas uma liberdade de despossuídos. Liberdade que se insinua mesmo em silêncios, mas sobretudo na proposição daquilo que é inaugural. E é preciso dizer, a música de Milton Nascimento, como a palavra de João Guimarães Rosa, é inaugural mesmo quando sublinha a repetição. O "rio-rio-rio, o rio," de uma terceira margem ou o "aço, aço, aço, aço", de uma canção da esquina das Minas Gerais, são águas de um mesmo igarapé, cursos da mesma vereda. Na música de Milton, há muitos modos de produzir intensidades: a variação dos andamentos, por exemplo, ou a produção de dissonâncias, a dramaticidade das pausas e das dinâmicas que nos conduzem ao ápice e no minuto seguinte ao desconhecido. E há uma propriedade plástica quase visual na música bituquiana. Podemos dizer que existe uma ideia de profundidade que constitui territórios sensoriais. São contornos melódicos sugerindo o desenho montanhoso das Minas Gerais. Soma-se a isso a construção de camadas de reverberação que presentificam a potência dos vales de Minas. Essa reverberação cria efeito de distanciamento e situa a música em um território afro-barroco mineiro. Ouçam "Itamarandiba", gravada em 1980, ou a faixa "Sentinela", do mesmo álbum, gravada com Nana Caymmi.
Há certamente um Milton Nascimento de carne e osso, filho da professora de música Lília Silva Campos, nascido no Rio de Janeiro e criado em Três Pontas, interior de Minas Gerais, com suas virtudes e seus defeitos. Mas há um outro Milton Nascimento, que foi alçado da dimensão biográfica para a indústria cultural, e dessa, rapidamente, para uma espécie de espaço mítico e místico: qualquer coisa entre a nobreza e o Olimpo. Isso se deve ao já citado efeito transcendental que sua música provoca, mas também à dinâmica de reiteração, sobretudo de outros músicos, compositores e intérpretes, do seu lugar hors concours na música brasileira. Nesse sentido, interpretar as canções de Milton Nascimento, apesar das inúmeras regravações, não é pouca coisa; para boa parte dos entusiastas da obra do carioca-mineiro, é quase como entoar uma oração. E sublinho: interpretar Milton Nascimento não é apenas executar um tema, como a maioria fez e faz, mas, de algum modo, reelaborar a partir da manipulação de elementos técnicos (e sem dispensar o feeling) dinâmicas de transcendência características. Quer dizer, criar a partir das singularidades que constituem cada interpretação e cada intérprete, elementos que, a seu modo, reconstruam efeitos de transcendência. E se podemos considerar que a execução dessa música tem mesmo feitio de oração, nada mais apropriado do que intitular "Milagre" um disco que reúne um conjunto dessas obras. Milagre, pois, é o segundo álbum do Orizzonti, composto por sete faixas assinadas por Milton e seus parceiros (Fernando Brant na maioria das vezes, mas também Ronaldo Bastos e Caetano Veloso).
Orizzonti é um grupo composto por Bruno Santos (trompete), Daniel Freire (sax barítono/tenor/clarone), Felipe Dias (baixo acústico/elétrico), Rafael Rocha (trombone), Renato Rocha (bateria), Roger Rocha (sax alto/soprano) e Wanderson Lopez (violão de 8 cordas/guitarra). O plantel citado congrega a base daquilo que, sem o risco do exagero, é o cerne da transformação da música instrumental feita no Espírito Santo. E digo feita no Espírito Santo não por bairrismo ou provincianismo, mas por uma questão meramente de certidão de nascimento, porque, em verdade, a música feita por esses caras há muito tempo saiu da panela quente de caranguejo capixaba. Diferente de boa parte das dezenas de álbuns que já homenagearam a obra do Bituca, o Orizzonti optou por um repertório nada óbvio. Se por um lado encontraremos as familiares "Cravo e Canela" e "Bola de Meia, Bola de Gude", por outro lado, o grupo registrou contundentes interpretações de "Outubro" e "Saídas de Bandeiras", músicas menos conhecidas do grande público. Vale a pena destacar, no entanto, que mesmo as mais conhecidas canções de Milton soam no álbum com um absoluto frescor de caminhos inaugurais graças aos arranjos de Bruno Santos, Rafael Rocha e Wanderson Lopez.
Não é demais lembrar que boa parte das músicas gravadas já tinham sido arranjadas por outros gigantes. "Cais", por exemplo, em 1972, foi gravada pelo Quinteto Villa-Lobos com participação e arranjo de Luiz Eça e pelo Bituca no lendário Clube da Esquina; dois anos depois, foi gravada no Teatro Municipal de São Paulo com Milton, o Som Imaginário e uma orquestra regida por Wagner Tiso, no incrível álbum Milagre dos Peixes ao vivo (1974); pouco tempo depois foi a vez de Nana Caymmi registrar a canção com arranjo para orquestra de seu irmão Dori Caymmi. E a história não para por aí. Ou seja, escrever um arranjo para uma música do Bituca nunca é lidar com um pentagrama vazio. Mas os arranjos do Orizzonti não ficaram em dívida com nenhum dos gigantes.
Orizzonti, palavra derivada do italiano, segundo o grupo significa possibilidade ou perspectivas sobre algo, e, como se sabe, também pode ser definida como a linha que separa o céu da terra, ou do mar. Completaria dizendo que Orizzonti é aquilo que não é possível encostar, não se tateia, não se toca, mas ele está sempre lá no alto e na fronte, servindo, de alguma forma, para nos orientar. Não é pouca coisa. Um nome é antes de tudo um símbolo. O álbum Milagre abre com a participação especial do maestro Letieres Leite, falecido precocemente no dia 27 de outubro deste ano. Sem dúvida, na linha de Tranquilino Bastos, Abigail Moura e Moacir Santos, Letieres foi um clarão que iluminou os caminhos da música instrumental orquestral brasileira e, como fica claro na citação que abre esse texto, o maestro compreendia a obra de Milton Nascimento como central no panteão de compositores do mundo.
Ter Milton Nascimento e o maestro baiano Letieres Leite, de alguma forma, juntos, na abertura desse álbum é, na língua que Letieres conhecia bem, um pedido de Agô. Quer essa turma de jovens músicos saiba ou não, é um pedido de licença para esses ancestrais pretos que, da iorubana Roma Negra à banto África das Gerais, civilizaram essa terra. Sem mais delongas, vamos ao Milagre.
Publicado no Jornal A Gazeta, 18 de dezembro de 2021.