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O eterno sorriso negro de Dona Ivone Lara

Sobre Dona Ivone Lara, autora do primeiro samba-enredo assinado por uma mulher no grupo especial do carnaval carioca.

O ano é 1965, a alegria escorre pelas ruas do Rio de Janeiro, o entusiasmo dos foliões do Bloco Cacique de Ramos e a "alta classe" dos figurantes do Bloco Bafo da Onça são noticiados nos jornais. As portas sisudas do Teatro Municipal se rendem ao carnaval e acomodam bailes nada comedidos. Celebridades locais desfilam de mãos dadas com a felicidade. O mito do cinema, Romy Schneider, hóspede de Jorginho Guinle, recém-indicada ao Globo de Ouro e recém-separada de Alain Delon, dá as caras na festa do Momo para ver o Saci e a Sinhá Moça dividirem o troféu de Fantasia Original, e São Sebastião, o padroeiro da cidade, levar para casa o prêmio de Fantasia de Luxo do ano. As ruas fervilham e os folgazões trepidam nostálgicos.

O Rio de Janeiro comemorava seus 400 anos e, para homenageá-lo, os blocos celebravam o Rio antigo e as escolas de samba desfilavam enredos sobre a cidade da Guanabara. O fluxo de pessoas nas ruas era intenso, os foliões atrapalhavam a chegada dos carros alegóricos à concentração na Candelária. Antônio Carbonelli, presidente da Imperatriz, prevendo um problema, solicitou ao coordenador do desfile, Sergio Junqueira, que a escola fosse a última a desfilar. O pedido foi negado. No dia 28 de fevereiro, um domingo, a Imperatriz Leopoldinense foi a primeira a pisar na Avenida Presidente Vargas para um desfile desastroso que lhe rendeu o último lugar. Depois da escola de Ramos, entraram na avenida o Império da Tijuca e, na sequência, a Aprendizes de Lucas. Para Maurício Sherman, jurado dos quesitos conjunto e evolução, o Império Serrano, a oitava escola a desfilar naquela noite, era favorita ao título. Mas, quem é do ramo sabe, um detalhe pode transformar a favorita em preterida.

Na quinta-feira, dia primeiro de março, às 15h, os representantes das agremiações se reuniram na Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro para contar os votos. A comissão de frente impecável, o gingado do mestre-sala Agostinho, e a bateria sob a nova direção de Ernesto Rodrigues foram decisivos para os 132 pontos que asseguraram o título ao Acadêmicos do Salgueiro. Em segundo lugar, o Império Serrano, com 10 pontos a menos. O belo desfile da escola da Serrinha não foi suficiente para superar a escola de Fernando Pamplona. Apesar disso, a história consagrou, no carnaval de 65, um samba-enredo que, ao contrário das concorrentes, entraria para os anais da música popular brasileira.

Cinco bailes da história do Rio, assinado por Silas de Oliveira, Antônio Oliveira (vulgo Bacalhau) e Yvone dos Santos, que se popularizaria como Dona Ivone Lara, além de ser um samba de qualidade inconteste, ostenta o título de primeiro samba-enredo de uma escola do grupo especial composto por uma mulher. Leonardo Bruno, no livro Canto da sereia: o poder das mulheres que escreveram a história do samba (Agir, 2021), explica que Dona Ivone Lara não entrou na parceria de primeira. Silas de Oliveira havia escrito o memorável samba do ano anterior, Aquarela brasileira, e gozava de certa credibilidade para escrever o samba daquele ano. Mas seus encontros de trabalho com o parceiro Bacalhau quase sempre terminavam em muito pileque e pouca música. A fim de resolver o entrave, Fuleiro, diretor de harmonia da escola e primo de Ivone Lara, fez o meio de campo e levou a dupla de compositores à casa da sambista.

Naquele dia, Silas, Bacalhau e Fuleiro não foram recebidos na porta com sorrisos, afagos, açúcar e afeto. Oscar, marido de Dona Ivone, não gostou da ideia e, como afirmou em entrevista a própria compositora: "[Só] depois de fazer a janta e deixar a mesa pronta, falei com eles". O episódio é simbólico e revela muito do que foi a vida da compositora. No livro Dona Ivone Lara: a primeira dama do samba (Sonora, 2015), Lucas Nobile faz uma radiografia da sambista e, se por um lado fica claro que algumas mulheres eminentes foram essenciais na formação de Dona Ivone — Emerentina, sua mãe, Zaíra de Oliveira, sua professora, e Tia Maria Teresa do jongo, para citar algumas —, fica claro também que, para serem ouvidas, essas mulheres tiveram que driblar as mais difusas estratégias de silenciamento.

Em entrevista a Milla Burns publicada no livro Dona Ivone Lara — Sorriso Negro (Cobogó, 2021), a sambista explica que muito antes do sucesso do carnaval de 65, ela compunha sambas que eram mostrados aos outros como se fossem do primo Fuleiro: "Era um sucesso. Ele tocava e todo mundo gostava, elogiava, perguntava de onde ele tinha tirado a ideia. Eu ficava de perto, vendo aquilo, ouvindo o que diziam e pensando que era tudo meu." Tanto a biografia de Nobile quanto as análises de Bruno e Burns apontam que os modos de enfrentamento de Dona Ivone nunca foram diretos e violentos. Certamente, a apropriação dos sambas privava a compositora do reconhecimento entre os sambistas; no entanto, naquele contexto, essa era uma estratégia empreendida pela própria Ivone para ser ouvida. A imagem evocada pelo célebre samba "Alguém me avisou" ilustra sua dinâmica de resistência e drible: Ivone Lara chegou "pisando devagarinho".

Burns faz uma análise do álbum Sorriso Negro (1984), localizando a obra em um contexto de desenvolvimento dos movimentos negros e das ideias feministas. A autora argumenta que, ainda que Dona Ivone nunca tenha assumido um ativismo, a seu modo, a sambista tensionou uma sociedade que se construiu sob uma dinâmica de exclusão e extermínio da mulher e do negro. Milla Burns fala em "resistência pela existência". Em um epílogo pessoal e afetivo, a autora sublinha que a trajetória de Dona Ivone Lara não é a de uma "vítima desafortunada da sociedade brasileira", mas de uma mulher que, em busca de estabilidade financeira e autonomia, tomou as rédeas da sua vida, dedicando-se, inicialmente, ao trabalho de enfermeira e assistente social e mais tarde à carreira de compositora e cantora.

Dona Ivone Lara faria 100 anos no dia 13 de abril. Em uma carreira profissional iniciada efetivamente depois dos 50 anos, gravou 15 álbuns, compôs mais de uma centena de músicas e abriu as portas e janelas para gerações de sambistas. Mas passaram-se 55 anos desde Cinco bailes da história do Rio e Ivone Lara permanece uma exceção. Nenhuma outra mulher, até o carnaval de 2022, assinou um samba da escola da Serrinha. Em 2020, o empoderamento feminino foi tema do Império Serrano, com enredo intitulado "Lugar de mulher é onde ela quiser" — a escola entrou na avenida cantando um samba assinado por 13 homens.

Infelizmente, mais do que documentos historiográficos ou perfis biográficos, os livros de Lucas Nobile, Leonardo Bruno e Milla Burns permanecem atuais e necessários. Com o "axé de Ianga" e muita luta, os movimentos sociais têm colocado as demandas feministas na pauta do dia e confrontado o mito da democracia racial que durante tanto tempo mascarou as dinâmicas de exclusão e privilégios desse país. O legado de Dona Ivone Lara nunca foi tão político quanto hoje.


Publicado na Revista Quatro Cinco Um, 13 de abril de 2022.

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