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O levante de junho de 2013 e a espera de Godot

Sobre o conceito de "pemedebismo", de Marcos Nobre, e como o lulismo se revelou parte do mesmo arranjo oligárquico, não sua oposição.

Para compreender o significado das manifestações de junho de 2013 é imprescindível lidar com o conceito de "pemedebismo". O termo, cunhado pelo filósofo Marcos Nobre, transforma em metáfora o PMDB (atual MDB), a fim de demonstrar como a sigla se mantém sempre no poder, independente de quem vença as eleições — da formação dos blocos de governo de Fernando Henrique Cardoso até os dias de hoje. E quando foi preciso, para se manter no poder, mudou as regras do jogo — aconteceu na aprovação da emenda que permitiu a reeleição de FHC em 1998, aconteceu com o impeachment de Dilma em 2016. Em suma, estamos falando de um arranjo político de oligarquias que está incrustado na estrutura política do país.

Os anos de governo Lula que precederam as manifestações provocaram um sentimento de satisfação social: em 2009, o presidente tinha 85% de aprovação, havia superado uma crise internacional e aliava crescimento econômico e diminuição das diferenças sociais. Em outras palavras, Lula orquestrava interesses antagônicos, agradando o mercado financeiro e se dirigindo às demandas sociais representadas pelos movimentos de minoria. Em suma, um governo de conciliações. No entanto, o que vimos em 2013 foi o esgotamento desse modelo insustentável e a dolorosa constatação de que o lulismo não deve ser visto em oposição ao pemedebismo, mas como parte dele. As manifestações só eclodiram em 2013 em função dessa tomada de uma consciência trágica. Uma das promessas pós-junho foi uma renovação da esquerda, mas hoje, tal qual os personagens de Beckett, permanecemos à espera de Godot.


Publicado no Jornal A Gazeta, junho de 2018.

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