Os mil alertas para a crise climática
Sobre o Antropoceno, o negacionismo climático e o colóquio "Os Mil Nomes de Gaia", de Bruno Latour e Déborah Danowski.
No último dia 11 de abril, foi amplamente divulgado um fragmento do programa Good Morning Britain em que o jornalista Richard Madeley entrevista Miranda Whelehan, ativista ligada ao movimento "Just Stop Oil". O movimento ambientalista foi responsável pelas manifestações contra o uso de combustíveis fósseis em algumas usinas de petróleo em Essex, no Reino Unido, e a repercussão do evento levou Whelehan a protagonizar uma cena análoga àquela interpretada por Jennifer Lawrence no filme Don't Look Up (2021). Na ficção de Adam McKay, Lawrence e Leonardo DiCaprio interpretam dois cientistas que, após descobrirem um cometa em rota de colisão com a Terra, tentam alertar as autoridades americanas sobre a provável destruição do planeta. Em uma cena icônica, os cientistas concedem uma entrevista a um programa de televisão, mas veem a gravidade dos fatos diluída em uma performance comprometida com o entretenimento da audiência. Em certa altura da entrevista, Dr. Randall (DiCaprio) quebra os protocolos que prescrevem sorriso e leveza, e dispara agressivo: "Desculpe, mas nem tudo tem que ser espirituoso, encantador ou fofo. Às vezes só precisamos dizer as coisas. Ouvir as coisas. Vamos deixar claro mais uma vez. Tem um cometa enorme vindo em direção à Terra. O motivo de sabermos isso é porque nós vimos. Vimos com nossos olhos usando um telescópio. Até tiramos fotos dele. Precisam de mais provas?!"
A cena não poderia ser mais semelhante. Na vida real, ao longo do programa de televisão, a ativista Miranda Whelehan, de 20 anos, é convidada a explicar as intervenções orquestradas pelo movimento Just Stop Oil, que pede o bloqueio dos terminais de petróleo e alerta sobre a crise climática no mundo. Mas, tal qual a ficção de Adam McKay, o comunicado sobre a iminência da catástrofe climática é reduzido a piadas e intimidações. "O slogan Just Stop Oil é bastante divertido e demasiado infantil", afirma o apresentador Richard Madeley, desqualificando a campanha. Em resposta às intervenções negacionistas, Whelehan insiste em apontar todas as evidências científicas e, por fim, conclui: "É cegueira voluntária e vai nos matar".
Em uma entrevista concedida a Eliane Brum e publicada no jornal El País no dia 29 de setembro de 2014, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro sugeriu um conceito de Günther Anders para explicar a desconexão entre a maioria das pessoas e um problema com a dimensão da crise climática. Viveiros de Castro explica que, se por um lado existem os fenômenos subliminares, isto é, fenômenos tão pequenos que são invisíveis e imperceptíveis, mas com os quais já estamos familiarizados; por outro lado, existem os "supraliminares", fenômenos tão grandes que também não seriam perceptíveis — dessa vez, não seriam perceptíveis em função de sua enormidade. Anders cunhou o termo para dar conta dos inimagináveis efeitos da bomba atômica, mas, segundo o antropólogo, este também seria adequado para pensarmos a crise climática, já que não a enxergamos justamente pelo tamanho do seu impacto.
Na contramão dessa desconexão e do negacionismo dos eventos supraliminares, entre os dias 15 e 19 de setembro de 2014, realizou-se na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, um evento que foi ao mesmo tempo um convite e um alerta para pensar o impacto de uma espécie que se converteu no principal vetor de destruição da Terra. O "Colóquio Internacional Os Mil Nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra", nas palavras do filósofo Bruno Latour, foi uma "espécie de ritual político, científico e antropológico" que reuniu, durante cinco dias, filósofos, intelectuais indígenas, antropólogos, climatologistas, historiadores e teóricos da literatura, todos engajados na elaboração de um aparato imaginário e conceitual que pudesse auxiliar na compreensão do nosso tempo. Segundo Viveiros de Castro, um dos organizadores do Colóquio, o objetivo era "não só contribuir para uma repercussão mais ampla, na opinião pública nacional, do que já se sabia então sobre a emergência climática, como explorar as dimensões políticas, culturais, históricas e filosóficas do advento do Antropoceno".
O termo Antropoceno, amplamente discutido no evento, é uma designação proposta para nomear o que seria a nova época geológica em que a espécie humana deixa de ser um simples agente biológico para se tornar um "fator causal de magnitude capaz de alterar as condições biotermodinâmicas do planeta". Em outras palavras, o que nomeamos espécie humana se torna, no Antropoceno, o principal vetor de transformações cujos efeitos destrutivos já são, para muitos cientistas, irreversíveis. No centro dessas transformações encontramos o aquecimento global e as mudanças climáticas.
Em 2014, o colóquio "Os Mil Nomes de Gaia" denunciou que o tema da crise climática planetária era ignorado pelas elites governantes e minimizado pelos meios de comunicação de massa e, em grande medida, pelos movimentos populares. Passados sete anos, a situação se tornou mais agravante. Nos primeiros três anos de governo Bolsonaro, o desmatamento em terras indígenas aumentou 138%; nas áreas de preservação, o aumento foi de 130%. Alguns dos mais destacados cientistas afirmam que a floresta amazônica chegará ao ponto de não retorno quando cerca de 25% de seu território for destruído. Hoje, 20% da floresta já foi desmatada. A crise climática planetária tem dimensões ainda mais catastróficas no Brasil, dada sua extensão geográfica e centralidade econômica. Como sublinhou Eliane Brum em artigo recente no El País, com o andar da carruagem, o Brasil deixará de ser "o país do futuro" para se tornar aquele que inviabiliza um futuro da humanidade.
Para alguns, essas afirmações soam excessivamente alarmantes, mas, como afirmaram, cada um a seu modo, o xamã yanomami Davi Kopenawa e a jovem ativista Greta Thunberg, é preciso temer. Em sua conferência no "Mil Nomes de Gaia", a professora Déborah Danowski nos lembra que "quem não tem medo, ou pelo menos finge que não, é Bolsonaro, o indiferente, o genocida, e seus apoiadores incondicionais. É preciso ser um covarde para não ter medo."
Para muitos, o colóquio foi um ponto de inflexão que trouxe para o primeiro plano a dimensão de uma crise tantas vezes vista como lateral. Mas é preciso mais, porque em certa medida a maior parte das pessoas, mesmo aquelas comprometidas com as causas identificadas à esquerda do espectro político, minimizam a crise. Por isso mesmo, em um esforço de ampliar ainda mais os braços que fazem soar esse alarme, a estreante Editora Machado acaba de publicar o primeiro dos dois volumes que reúnem as comunicações apresentadas entre os dias 15 e 19 de setembro de 2014, na Casa de Rui Barbosa. O volume, que reúne pensadores centrais como Bruno Latour, Déborah Danowski, Alexandre Costa, Peter Szendy e Donna Haraway, entre outros, é um tecido de narrativas distintas, mas convergentes, que constrói interrogações sobre o presente e mobiliza afetos para a reinvenção de um futuro.
Publicado na Revista Quatrocincoum, 1º de agosto de 2022.