Xande canta Caetano que cita Machado
Sobre o álbum de Xande de Pilares em tributo a Caetano Veloso, o recalque machadiano e a democracia racial como sublimação.
Mas as polcas não quiseram ir tão fundo.
— Machado de Assis, apud Caetano Veloso (Circuladô, 1991)
Em 4 de agosto, Xande de Pilares lançou seu mais recente álbum, um tributo dedicado à obra do cantor e compositor Caetano Veloso. A singularidade do projeto consiste em sua proposta de reinterpretar o repertório de Caetano à luz de ritmos e instrumentações profundamente enraizados nas culturas afro-brasileiras. Acompanhando o lançamento do álbum, um vídeo comovente foi divulgado nas redes sociais, no qual Caetano Veloso, ao lado de Paula Lavigne, do produtor e arranjador do álbum Pretinho da Serrinha e do próprio Xande, é visto visivelmente emocionado ao ouvir a versão da canção "Gente" (1977). A cena teve uma ressonância significativa entre artistas, fãs e críticos, ganhando rapidamente destaque na esfera digital. A partir de então, surgiram inúmeros textos na internet buscando esclarecer o significado e a importância de "Xande canta Caetano". Este artigo se une a essa discussão, buscando compreender e contextualizar a relevância deste álbum. Seu eixo central é o argumento de que, além de representar um marco na carreira de Xande de Pilares, o álbum projeta a obra de Caetano a outras alturas, ampliando uma discussão em torno dos caminhos de reconstrução da democracia.
Antes de adentrar o argumento proposto, é essencial estabelecer a premissa de que, enquanto em muitos países a literatura escrita ocupa o centro da cultura, no Brasil a canção popular exerce o papel central na condução da vida cultural pública. E esta singularidade aponta para uma dicotomia profundamente enraizada na literatura brasileira do século XIX — um conflito entre aquilo que se convencionou chamar cultura erudita, profundamente alinhada à tradição europeia e às práticas letradas, e a cultura popular, que se caracteriza pela oralidade e uma conexão intensa com as manifestações do povo.
As obras de Machado de Assis talvez representem as primeiras a tratar desse tema, dando destaque à música popular como elemento central na representação dessa tensão cultural. No conto "Um Homem Célebre", por exemplo, o escritor apresenta a história de Pestana, um compositor com aspirações de criar obras eruditas, seguindo os passos de Beethoven ou Mozart. Contudo, apesar de suas tentativas, Pestana encontra-se involuntariamente atraído pelo gênero popular da polca. Embora impelido por uma ânsia de erudição, sua música invariavelmente retornava a esse estilo popular, levando-o a um sentimento de profunda insatisfação. A trajetória do compositor é permeada por um conflito interno pungente, alimentado pelo sucesso que conquistou na música popular em oposição às suas ambições eruditas não atingidas. Nesse cenário tumultuado, a saúde de Pestana declina, levando-o à morte. Na lápide do compositor, inscreve-se um trecho de uma de suas polcas, fixando ironicamente, na eternidade, o gênero musical que ele tanto renegou em vida.
O conto "Um Homem Célebre", de Machado de Assis, ilumina as complexidades da fama, da satisfação pessoal e da tensão entre cultura popular e erudita, oferecendo um panorama da realidade artística e social do Brasil do século XIX. Contudo, talvez a grande vocação do texto seja o modo como ele representa um conflito entre diferentes projetos de formação de um país. Outro conto significativo de Machado de Assis, "O Machete", mergulha ainda mais profundamente na interação entre esses projetos conflitantes. A história é centrada em Inácio Ramos, um músico amador entusiasta do repertório erudito e do violoncelo, que na narrativa é retratado como a representação da "alta cultura". A narrativa se complica com a entrada em cena de Barbosa, um estudante de direito e tocador de machete, um instrumento popular semelhante ao cavaquinho. E bem ao gosto do Bruxo do Cosme Velho, a trama se desdobra em torno de um triângulo amoroso composto por Inácio, sua esposa Carlotinha, e o jovem cavaquinista (ou machetista) Barbosa. Assim como Pestana em "Um Homem Célebre", que, embora almejasse a música erudita, se encontra predestinado à polca, Inácio Ramos, um admirador do violoncelo e, consequentemente, da "alta cultura", é literalmente traído por aquilo que escapa à sua consciência e acaba cedendo ao inevitável. A história culmina com a ironia característica de Machado de Assis: ao perceber a inclinação do filho pelo machete, instrumento popular tocado pelo amante de sua esposa, Inácio Ramos profere suas últimas palavras antes de sucumbir à loucura: "Você tem razão; machete é melhor". Em resumo, em ambas as narrativas, seus personagens principais, ao buscarem a erudição musical, são inexoravelmente atraídos para a música popular, revelando a potência e a inescapabilidade desta na formação da identidade e da cultura brasileiras.
A polca, recorrente nos contos de Machado de Assis, ascendeu como um gênero musical significativo no fim do século XIX. Trata-se de um gênero europeu que se adaptou, refletindo a mescla de influências culturais e sonoras locais. É importante notar que o Rio de Janeiro, capital do país na época, era um foco de diversidade cultural africana. Foi neste contexto que a polca e as musicalidades afro-brasileiras se entrelaçaram em uma rica troca cultural. No ensaio "Machado Maxixe", José Miguel Wisnik defende que a incorporação do ritmo sincopado, uma característica marcante das musicalidades centro-africanas, causou uma transformação profunda na sonoridade da polca. Essa mudança não se restringiu apenas ao ritmo, mas alterou significativamente a atmosfera musical. A partir dessa fusão, a polca aos poucos se transformou em maxixe. No entanto, é importante destacar que a transformação da polca em maxixe aconteceu em um contexto de conflito, que consistia em como incorporar símbolos culturais africanos em uma identidade marcada por racismo e exclusão.
Na interpretação de José Miguel Wisnik do conto de Machado de Assis, as dificuldades de Pestana em compor sonatas, sinfonias e réquiens não devem ser atribuídas unicamente a uma falha individual de suas habilidades de composição. Ao contrário, Pestana deve ser compreendido como uma expressão vívida da cultura ao seu redor — um reflexo da vida coletiva típica de sua época. Wisnik sugere que Machado oferece uma análise aguda e única da vida musical brasileira no final do século XIX, formulando uma equação complexa cujos elementos antecipam o curso futuro da música popular urbana no Brasil. Ampliando sua reflexão sobre o problema, José Miguel Wisnik introduz um termo na análise do conto derivado da psicanálise: recalque. Na psicanálise, o termo refere-se a um mecanismo de defesa inconsciente que o indivíduo emprega para lidar com pensamentos, sentimentos ou impulsos perturbadores ou inaceitáveis, afastando-os da consciência para áreas inconscientes da mente. De acordo com Sigmund Freud, o recalque ocorre quando nos deparamos com emoções ou ideias que consideramos inaceitáveis ou desconfortáveis e as relegamos ao fundo da mente. Embora recalcadas, essas ideias ou emoções não desaparecem completamente. Elas podem ressurgir indiretamente em sonhos, lapsos de linguagem, atos falhos, ou até mesmo se manifestar como sintomas físicos ou psicológicos.
No conto "Um Homem Célebre", o conceito de recalque é usado para se referir à música afro-brasileira e, de modo mais amplo, à influência cultural africana na sociedade brasileira. Durante a escravidão e por muitos anos depois, a cultura africana foi frequentemente marginalizada, suprimida e até proibida, sendo "recalcada" no imaginário social. Contudo, semelhante ao conceito freudiano, o recalcado não desaparece, mas permanece influenciando de formas indiretas e, muitas vezes, inesperadas. Desde o início do conto de Machado, somos apresentados à luta de Pestana para compor uma obra erudita. Contudo, em um contexto de distração total, contrapondo a tensão do esforço de composição, um momento significativo ocorre durante um diálogo entre o protagonista e seu escravizado. Segundo Wisnik, a conversa informal com o escravizado desencadeia uma série de associações que culminam em uma polca, certamente amaxixada, inesperada: um retorno do recalcado que, momentaneamente, "transforma o ciclo vicioso em virtuoso".
Embora o dilema apresentado por Wisnik possa, à primeira vista, parecer distante das questões frequentemente abordadas pela canção popular brasileira contemporânea, é interessante observar como o retorno aos impasses machadianos ecoa na obra de Caetano Veloso. Wisnik nos lembra que Veloso, no encarte do álbum Circuladô (1991), faz referência justamente a uma frase do mesmo conto machadiano. Tal menção direta sugere uma ligação deliberada e explícita com a temática machadiana, destacando a contínua relevância das problemáticas do conto para a música brasileira contemporânea.
Indo além da análise de José Miguel Wisnik, é possível afirmar que, frente a um contexto em que o recalcado teimava em emergir, a sociedade brasileira adotou outro mecanismo de defesa: a sublimação. Freud define a sublimação como o processo pelo qual impulsos perturbadores, frequentemente carregados de sexualidade ou agressividade, são transformados em atividades socialmente aceitáveis e até admiradas. Embora este conceito seja tipicamente aplicado à dinâmica individual, é crucial compreender sua relevância e aplicação em um nível coletivo e social. A sublimação pode atuar como uma maneira de uma sociedade lidar com traumas e conflitos coletivos, transmutando-os em manifestações culturais, políticas ou artísticas. No Brasil, a música popular é justamente um exemplo tangível dessa dinâmica, um espaço onde as tensões e intersecções raciais e culturais são não apenas expostas, mas também questionadas, reformuladas e reinterpretadas. A sublimação também pode funcionar como um catalisador para canalizar de forma produtiva o impacto traumático da colonização e da escravidão, no nosso caso, permitindo que uma sociedade encontre significado, propósito e até mesmo beleza em suas adversidades.
A construção do conceito de democracia racial no Brasil é um exemplo, por excelência, do que pode ser um processo de sublimação. Este conceito, que propõe a ideia de um país racialmente harmonioso, serviu como meio de sublimar a realidade do racismo, convertendo a opressão racial em um relato de convivência pacífica entre diferentes raças e culturas. É crucial ressaltar que a construção do discurso da democracia racial envolveu uma mercantilização das culturas autóctones e afro-diaspóricas. Interpretada como uma dimensão central da sublimação coletiva, a metamorfose das culturas autóctones e afro-brasileiras em mercadorias possibilitou que o Brasil projetasse uma imagem de si mesmo como uma sociedade pós-racial, onde as diferentes raças e culturas coexistem em harmonia. E teve a música popular como palco hegemônico não apenas da divulgação dessas concepções, mas como o próprio resultado dos seus processos. Mas as contradições desse processo, no seio da própria música, são evidentes e nunca deixaram de se revelar.
Em seu ensaio "Don't Look Black? O Brasil entre dois mitos: Orfeu e a democracia racial", que faz parte do livro O mundo não é chato (2005), organizado por Eucanaã Ferraz, Caetano Veloso discute a centralidade do termo democracia racial no que ele chama "liberação de uma autoimagem racialmente eufórica dos brasileiros". Na visão do compositor, a noção de democracia racial tornou-se um alvo recorrente de críticas por parte de cientistas sociais e ativistas políticos; Caetano sugere que essa obsessão em criticar a democracia racial como um mito alcançou um nível surpreendente, o que ele chama de "quase mito do mito da democracia racial". A discussão em torno de se a democracia racial é um mito nos leva a considerar a possibilidade de que, na perspectiva de Caetano, ainda existam possibilidades na sociedade brasileira para a construção de uma verdadeira democracia racial. Em suas próprias palavras, "a experiência brasileira deve ser enriquecida pelo mito da democracia racial, não desqualificada por ela" (2005). O tema é delicado e exige discussão mais ampla. Diria, por hora, que a afirmação de Caetano desloca essa noção. Ao invés de um mecanismo de defesa social de sublimação do trauma colonial, para ele a democracia racial seria uma espécie de dissolução do próprio trauma. E não há dúvida, a música popular está no cerne dessa dinâmica.
Caetano encarna um Pestana sui generis que, inclinado ao exercício acadêmico do ensaísmo e da crítica cultural, consagrou-se como compositor popular colocando "todos os fracassos na parada de sucesso", como afirmou, ao subverter o complexo machadiano, na canção "Araçá Azul" (1972). E qualquer afirmação sobre o álbum "Xande canta Caetano" não pode prescindir da informação de que se trata de um encontro entre um dos mais importantes pensadores da cultura brasileira com Xande de Pilares e Pretinho da Serrinha, dois homens pretos nascidos e criados na periferia da democracia brasileira. Dois homens pretos herdeiros não apenas dos recursos técnicos que permitem a constante reinvenção das experiências estéticas diaspóricas, mas também dos recursos existenciais que permitem a enunciação de outros valores civilizatórios.
Muitas análises sobre o álbum "Xande canta Caetano" sugerem que a interpretação do sambista confere uma abordagem mais popular à obra do baiano, frequentemente vista como distante do público em geral. Outras opiniões argumentam que a gravação de Xande meramente ressalta o caráter popular inerente à obra original de Caetano. Há ainda críticos que destacam um aspecto relacionado à dinâmica étnico-racial presente na própria inovação dos arranjos, o que resultaria em um processo de enegrecimento do repertório de Caetano. Todas essas perspectivas sobre o álbum podem ser vistas como complementares e sobrepostas.
No entanto, um ponto fundamental é compreender o álbum como um elemento-chave em uma discussão mais abrangente. A dinâmica cultural racista que primeiro recalcou e depois sublimou embranquecendo, como parte da construção de uma identidade nacional em tese moderna, agora é reorientada, metonimicamente, pelo encontro desses três. Isso pode significar que, mais do que um processo que tem na música popular seu território privilegiado para sublimação do conflito estruturante nas relações sociais e raciais, aos ouvidos daqueles que sobreviveram ao projeto fascista de Bolsonaro, o álbum explora os limites da inclinação conciliatória do gênero canção e soa como um aprofundamento consciente nas tensões raciais e sociais para emergir como a proposição de um caminho novo. Um caminho que, além de pressupor a superação de um complexo de Pestana ou de um bovarismo brasileiro, como já escreveu Maria Rita Kehl, provoca a imaginação estética e política tantas vezes fossilizada pela reiteração acrítica da tradição. Citando mais uma vez Caetano, que por sua vez cita Machado de Assis: "Mas as polcas não quiseram ir tão fundo".
Publicado com o título "Xande canta Caetano que cita Machado" na Revista Quatrocincoum, 1º de setembro de 2023.
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