À guisa de um Manifesto
Um manifesto poético sobre a urgência da linguagem, do gesto poético como contravenção e do Poeta como figura de invenção.
Com a licença dos idiotas da objetividade: é urgente uma palavra que alargue a experiência. Uma linguagem-lâmina que atravesse o corpo da repetição, a pele do hábito, a medula do ressentimento. Em uma haste ou em um grito: hoje, é preciso uma bandeira para invenção, uma sintaxe da intensidade. É imperativo que se levante o poeta. Levante e funde um caminho inaugural. Cesse o obscurantismo do espírito, e toda luta se dirija ao proselitismo da língua e do gesto. Combata a mediocridade com o pulso que é ritmo, com a imagem que é força. Confronte a língua com o rigor do engenho, com a gravidade da metáfora. Confronte a língua com o sentido que é plural, com a verdade lacunar, imprecisa e elíptica. Porque o engenho é Político e maiúsculo, e o gesto poético é uma contravenção.
Mais do que nunca, é preciso o Poeta. A Grande Dor que é o Outro, o estranho, a figura inconsistente de uma face que se reconhece na vértebra ou na palavra, nos ossos de uma alegoria, no dorso do verso. Contra todo limite e a violência, que é obscena, paralisante, interponha-se a metáfora-metástase, proliferação da imagem que desconcerta, uma saúde outra — sem o sucesso-produtividade, mas potência. O Poeta, hoje, sobretudo ele — ou intensificar a desorientação, combater o silêncio, a tautologia. A imolação, a estafa, o progresso. O poeta-criador, porque a linguagem opera uma suspensão, desarma e arrebata. A linguagem transforma o corpo, transforma o afeto, por isso o Poeta. A linguagem funda o mundo e é casa. Por dia, um poema ou uma reorientação do desconforto, por dia um poema ou a proposição de novas falas. Por dia um poema porque o criador não se fixa na existência e o Poeta é um sopro de vida originário, dedo apontado ao coração do homem, pássaro e pedra.
Para inaugurar o ato, ampliar o tato, romper a repetição, o hábito empobrecedor, a náusea. O Poeta refunda o símbolo e reinaugura um por vir porque convoca à palavra, ao sentido. É sobretudo hoje; e aos esgarçados, exaustos, anêmicos, famintos, aos descrentes, aos crentes, aos céticos, aos mudos, aos prolixos. Sobretudo um Poeta, um voo contínuo, o pouso perpétuo, a palavra que funde vigília e torpor.
Publicado no Jornal A Gazeta, abril de 2018.