Iemanjá, vanguarda
Candomblé, o oriki como gênero poético iorubá e sua inesperada proximidade com as vanguardas estéticas do século XX.
"Dia dois de fevereiro / Dia de festa no mar / Eu quero ser o primeiro / A saudar Iemanjá". A canção de Dorival Caymmi é uma entre as inúmeras saudações ao orixá que estão no cancioneiro brasileiro. A religião dos orixás foi extremamente hostilizada desde o Brasil colonial e, hoje, com o crescimento da bancada política evangélica, a perseguição ganha novo vigor, mas isso não impede que sob alguns aspectos a religião tenha ampla penetração social. Toda gente sabe, por exemplo, que dia dois de fevereiro é dia de Iemanjá, a deusa dos mares. E em grande parte devemos a popularização de algumas dessas informações aos livros de Jorge Amado, composições de Caymmi, Vinícius, Caetano, Gil, Paulo César Pinheiro e outros.
Para início de conversa, é importante sublinhar que a religião dos orixás não é a única religião de matriz africana que se desenvolveu no Brasil. Antes dos nagôs-iorubás, escravizados oriundos principalmente do Togo, do Benin e da Nigéria, aportarem por estas terras no século XIX, com seus orixás e voduns (deuses nagôs e jejes, respectivamente), um enorme contingente de escravizados de Angola e do Congo, os bantos, foram trazidos para o Brasil — estamos falando dos séculos XVI, XVII e XVIII. E os bantos trouxeram seus deuses: Zambi, Dandalunda, Catendê, Tempo, entre outros. Os inquices (como são chamados) ainda são cultuados em importantes terreiros como o Bate Folha, na Bahia, e o Inzó Musambu riá Kukuetu (que já atendeu por Inzó Alafin de Iemanjá), aqui na Serra.
Mesmo a religião dos orixás, mais popular entre nós do que os inquices, não se resume a um único conjunto de práticas rituais. A umbanda, que nasceu no Rio de Janeiro no início do século passado, e o candomblé jeje-nagô, por exemplo, são religiões que mantêm tantos pontos de contato quanto questões díspares. E mesmo essas duas religiões se subdividem, e essas subdivisões apresentam diferenças entre si porque são construídas a partir da tradição oral passada de geração para geração.
Antropologicamente, tentar encontrar um candomblé "puro" é uma tolice. Todo exercício sério de exame dos mitos e sobretudo das práticas religiosas deixa evidente que as religiões de matrizes africanas são absolutamente sincréticas. A esse respeito vale ler o livro História de um terreiro nagô, de Deoscóredes dos Santos, o Mestre Didi. E a festa de Iemanjá é um bom exemplo porque é uma das práticas comuns aos terreiros de candomblé jeje-nagô, de umbanda e de algumas casas de candomblé banto (congo-angolano), que apesar de, a princípio, não cultuarem o orixá, sofreram grande influxo do povo nagô-iorubá e hoje identificam Iemanjá com Mikaia, Nkaia ou Kaia(la), um dos seus inquices.
Um caso bem próximo é o Inzó Musambu riá Kukuetu, já citado, localizado no Bairro de Fátima, no município da Serra, uma casa de candomblé congo-angolano, que já carregou o nome de uma deusa nagô-iorubá (Iemanjá), Inzó Alafin de Iemanjá, mais especificamente uma deusa do povo egbá, da Nigéria. Esse é só um exemplo dos arranjos sincréticos que tecem a cultura brasileira.
Os orixás são deuses que se identificam com as forças da natureza. Iemanjá é parte importante desse panteão. Antonio Risério, no seu Oriki Orixá, livro capital sobre a poética iorubá, descreve Iemanjá com as seguintes palavras: "A Grande Mãe, com suas contas de cristal e seu axé assentado sobre as conchas e pedras marinhas. Deusa da água. Dona do mar. Adivinha. Feiticeira. Mulher fecunda, bela, rica, sábia e poderosa. Mas também indomável e até vingativa".
Diversos mitos recolhidos em alguns países da África, no Brasil e em Cuba apontam Iemanjá como a grande mãe dos orixás. Um dos mitos citados por Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Édison Carneiro, Leo Frobenius (o autor do conceito de paideuma, que influenciou Ezra Pound), Pierre Verger e muitos outros estudiosos narra que da união entre Obatalá (o Céu) e Odudua (a Terra) nasceram Aganjú (a Terra Firme) e Iemanjá (as Águas). Iemanjá desposou o irmão e desse relacionamento nasceu Orungã. Este, aproveitando um dia de ausência do pai-tio, raptou e violentou Iemanjá, sua mãe. E foi do rompimento do ventre de Iemanjá que nasceram os orixás. O mito tem variações, mas em todos os casos as relações incestuosas permanecem e são sempre fruto de violência sexual.
Outro mito de grande interesse, que mostra tanto a face protetora quanto a indomável e vingativa da deusa, conta que um dos sete filhos de Iemanjá, por ser muito bonito, era constantemente vítima de inveja e calúnias. Uma das acusações feitas ao filho da deusa foi a de planejar a morte do próprio pai. Os homens, convencidos da acusação, sentenciaram o filho de Iemanjá à morte. A deusa, por vingança, teria coberto toda a terra com água salgada e exterminado a primeira humanidade. Qualquer coincidência com o mito cristão do dilúvio, segundo os estruturalistas e os metafísicos, pode não ser mero acaso.
Os mitos de Iemanjá — e todos os outros mitos dos orixás — colocam em xeque a visão maniqueísta cristã. Inúmeros são os mitos que narram uma deusa vingativa e adúltera, ao mesmo tempo amorosa e dedicada. Apesar das singularidades de cada etnia, seja banto ou nagô-iorubá, a ambivalência dos deuses é uma característica que mostra uma unidade fundamental entre as religiões de matrizes africanas. Aprofundando a questão, Antonio Risério ressalta uma tríade que parece marcar profundamente o pensamento religioso clássico da África e se opor ao ocidente cristão: antropocentrismo, geocentrismo, pragmatismo. "Ibiti eniyan kò si, kò si imalè", ensina um provérbio iorubano: "onde não há ser humano, não há divindade".
Diferente do que supõe a fantasia colonialista de alguns, os africanos trazidos para o Brasil cultivaram diferentes gêneros literários milenares. O Àdúrà e o Oriki estão, com certeza, entre os mais importantes para o povo iorubá e têm uma bela história de continuidade e sofisticação em terras tupiniquins. O oriki, gênero mais popular, principalmente entre o povo-de-santo (comunidades de candomblé), foi descrito por Olga Gudolle Cacciatore, em seu Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros, como "cântico de louvor que conta atributos e feitos de um orixá". Da mesma forma que a Ilíada e a Odisseia, o oriki nasceu da oralidade e não é produto de um único autor, mas criação coletiva. Ele está livre de esquemas de rima e regularidade dos versos, como nossa poesia modernista. Também podemos afirmar que, diferente de outras tradições orais, o oriki não conta uma história, apenas elabora um retrato difuso e incompleto, muitas vezes em linguagem sucinta e altamente figurativa. Como nesse oriki, recolhido por Pierre Verger e traduzido (à la Haroldo de Campos) por Risério, dedicado ao orixá Oxóssi, o caçador, senhor das matas:
pressa para atravessar a estrada 400 búfalos 800 aspas
Nas palavras de Risério, "o oriki não desenvolve linearmente um discurso, o oriki opera pela justaposição de blocos verbais. A estruturação do texto segue um princípio de montagem 'ideogrâmico', onde as proposições vão se sucedendo como numa colagem de unidades, sem que se providenciem nexos discursivos para uni-las num encadeamento lógico e/ou cronológico."
É impossível escapar à conclusão de que a composição não-linear, não-narrativa, sem a necessidade de rimas e regularidade do verso e, sobretudo, paratática, ou seja, operada por justaposição a partir do método ideogrâmico, como formulado pelo poeta-crítico Ezra Pound, está muito próxima dos textos produzidos nas vanguardas estéticas do século XX. E como afirmou o poeta e ensaísta norte-americano Jerome Rothenberg, principalmente a não-linearidade e a sintaxe de montagem estão entre os traços mais presentes na produção poética contemporânea. Em outras palavras, os textos são milenares e, ao mesmo tempo, antecipam uma estética de vanguarda porque durante milhares de anos mantiveram aquela "juventude eterna e irreprimível" digna dos clássicos, como afirmou Pound em seu ABC da Literatura e Calvino, com outras palavras, em seu Por que ler os clássicos. Os orikis são clássicos e de vanguarda, atributos aparentemente conflitantes que só poderiam se conciliar frente aos deuses.
A sofisticação dos orikis é uma breve demonstração da complexa, rica e, por isso mesmo, interessante cultura africana presente no Brasil. Cultura que precisa ser descoberta pela maior parte dos brasileiros — independente da religião. Dedico essas breves notas sobre África, candomblé, poesia e vanguarda ao aniversariante de amanhã, James Joyce, que nos legou Leopold Bloom, nosso Ulisses moderno, e, à sua maneira, teve que lidar, pelas ruas de Dublin, com o canto das sereias do reino de Iemanjá para criar outras mitologias. Deixo ainda um último oriki, dedicado à deusa dos mares, dona da festa:
Iemanjá que se estende na amplidão Aiabá que vive na água funda Faz a mata virar estrada Bebe cachaça na cabaça Permanece plena em presença do rei. Iemanjá se revira quando vem a ventania Gira e rodopia em volta da vila. Iemanjá descontente destrói ponte. Come na casa, come no rio. Mãe senhora do seio que chora. Pelo espesso na buceta Buceta seca no sono Como inhame ressequido. Mar, dono do mundo, que sara qualquer pessoa. Velha dona do mar, Fêmea-flauta acorda em acordes na casa do rei. Descansa qualquer um em qualquer terra. Cá na terra, cala — à flor d'água, fala.
(Trad. Antônio Risério)
Publicado no Jornal A Gazeta, fevereiro de 2014.