Caio F. incontestável
Vinte anos após sua morte, um ensaio sobre a atualidade da obra de Caio Fernando Abreu e seus personagens urbanos.
Vinte anos depois da morte de Caio, sua obra está mais vigorosa do que nunca. Seus livros têm sido continuamente reeditados, seus textos montados no teatro e encenados no cinema, seus contos se tornaram objeto de análises das mais diversas perspectivas críticas e sua vida se transformou em tema de livros e documentários. Já se passaram dois decênios e agora temos a distância suficiente que requer a crítica para afirmar, sem grande risco, que a obra de Caio Fernando Abreu integra hoje um quadro canônico de autores do século XX. Em 2006, quando fui apresentado a Caio, intrigava boa parte dos meus professores na universidade, que não compreendiam como um autor responsável pela autópsia dos anos 80 poderia interessar a minha geração. É evidente que ele continua interessando aos jovens, principalmente. E a propósito da dúvida latente, talvez a resposta seja a mesma. Por um lado, a força literária de sua obra se atualiza; por outro, nossos conflitos ainda são muito similares.
Caio começou a publicar muito jovem, e é possível perceber um claro paralelismo entre o autor de origem interiorana (Santiago do Boqueirão — Rio Grande do Sul), que constrói inicialmente personagens habitantes de um espaço sobretudo subjetivo — da reflexão solitária que não raro se materializa em fluxos de consciência –, tributário à sua herança clariceana e ao realismo mágico latino-americano; e o autor que aos poucos adentra as grandes metrópoles (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro) para construir uma radiografia do que se convencionou chamar sujeito pós-moderno. A escrita de seu primeiro romance, Limite Branco, e de seu primeiro livro de contos, Inventário do irremediável, ainda nos anos 70, marca essa primeira fase da obra do autor; na segunda fase, a partir da década de 80, momento em que tanto o autor quanto seus personagens adentram os limites da urbe, Morangos mofados, Os dragões não conhecem o paraíso e Onde andará Dulce Veiga (seu segundo e último romance) são os livros mais significativos. Mas sua obra está longe de se limitar a isso: Caio publicou mais de uma dezena de livros, escreveu e encenou peças teatrais, colaborou com crônicas em diferentes jornais, traduziu, e deixou uma infinidade de cartas que ainda não foram integralmente publicadas.
O que sabemos de Caio é que ele foi um escritor obsessivo, escreveu durante toda a vida. Sua obra nunca se restringiu a uma literatura de gênero, como já foi dito, e se seus temas foram vistos em algum momento como restritos a uma literatura de geração, o crescente interesse pela sua obra prova o contrário. Os conflitos encenados por Caio ainda são atuais. Seus personagens são habitantes das cidades e em parte se livraram dos grilhões que os prendiam às tradições (família, religião, propriedade), mas, ao contrário do que previam, essa "liberdade" não os legou modos de vida que implicassem certezas, garantias e seguranças subjetivas e materiais. As transformações operadas no seio da sociedade moderna criaram um novo mal-estar (Freud falou a respeito). São as diferentes faces desse tema que constituem a sua obra.
Caio nos oferece um espelho: seus personagens estão em condições para transitar nas cidades, mas parecem destinados a uma condição subjetiva entre a melancolia latente e a fragilidade dos laços afetivos, porque habitam quase sempre espaços efêmeros e tateiam possibilidades apenas fugazes. Nada se mantém por muito tempo. Esperava-se que o sexo, depois do desbunde das gerações de 70 e 80, preenchesse a lacuna da alteridade; admira perceber, no entanto, que tenha crescido sua capacidade de gerar frustrações e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. O que ocorre em boa parte dos contos de Caio é um esvaziamento, pois a vitória de Eros na grande guerra da satisfação é, na melhor das hipóteses, uma vitória de Pirro. A satisfação imediata garantida em uma noite não é sinal do fim, mas de recomeço.
Quem são esses personagens encenados por Caio Fernando Abreu? Não paira muita dúvida, e isso é muitas vezes doloroso. Os consumos que a cidade nos oferece não remediam a frustração que ainda parece dominar a cena textualmente inscrita. Como toda grande literatura, a obra de Caio não se restringe ao faz de conta; sua leitura é uma possibilidade de expansão da experiência do real — dos sentidos da realidade, do sentir o mundo com profundidade. Sem mais delongas, vamos aos textos.
Publicado no Jornal A Gazeta, fevereiro de 2017.