A força de Rosa: 60 anos de Grande Sertão: veredas
Ensaio sobre a grandeza de Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa, seis décadas após sua publicação.
Pensar em Grande Sertão: veredas é pensar também em Ulisses, de James Joyce; é pensar no Fausto, de Goethe, é pensar na Rayuela, de Cortázar, é pensar em Thomas Mann, pensar em Carpentier, Shakespeare, em Dante, em Virgílio, é pensar em Homero. É, em suma, pensar em obras que tentaram dar conta da grandeza da experiência humana, como anotou Davi Arrigucci Jr. É consenso que Grande Sertão: veredas está entre as obras mais importantes escritas no Brasil; 60 anos depois da sua publicação, a potência da obra ainda se renova a cada leitura. Os parágrafos a seguir são algumas considerações sobre algumas possíveis razões.
Com Rosa, compreendemos que o sertão é o mundo; o sertão é a linguagem. Matéria vertente, o todo sem margem, imensurável, sem tempo. Todos os tempos. Lampião, Glauber, Dom Sebastião. O sertão é geográfico, político e poético. O sertão é dentro, o sertão é outro. O sertão é olhar para o sertão e não entender sem limites, ouvir em Fabiano a potência do não-dito, balbuciar a fome de todas as línguas — o medo de Riobaldo, o medo de Macabéa –, tatear a textura dos rostos, profundezas da pele, encontrar ausências e veredas; atravessar. Do nada (- Nonada) ao entendimento (∞), o sertão é um estilhaço, um prisma de sal, uma pedra de sol que não se talha, ou se toca. Quadro sem moldura. Tudo cabe no sertão — inesgotável e grandiloquente, escasso e lacônico. O sertão é o manancial, nascente, a ausência, pacto primeiro, Diadorim inevitável, a travessia da dor.
O romance de Guimarães Rosa é grandioso porque une o alto e o baixo, o vulgar e o sublime em um plano universal. Como em Shakespeare ou em Dante radicada em sua época, o romance mostra defeitos de um narrador finito, temporal, situado. Tanto encontramos certa desconfiança das mulheres em Hamlet, certo conservadorismo político, e até mesmo o antissemitismo do Mercador de Veneza, quanto a manutenção do patriarcalismo colonial, a ostentação do poder latifundiário, do coronelismo e da violência das milícias sertanejas em Grande Sertão: veredas. Ora toda vicissitude encenada como denúncia, sem dúvida; mas quase sempre produto de uma época, incontornável. Riobaldo, o protagonista, é humanamente falho, limitado, contraditório e, por isso mesmo, grandioso e fascinante.
Riobaldo, como Hamlet, é um personagem cujo paradoxo (ser ou não-ser) é constitutivo e cuja consciência aguda tanto aprisiona quanto liberta. Isolado em sua consciência — e esta condição não é liberal, mas trágica –, o exercício de alteridade só pode estar no diálogo. Pode-se ler Os Sertões, de Euclides da Cunha, isto é, a narrativa de Canudos, fundamental para Guimarães Rosa, como o testemunho da violência, da barbárie, em última instância como a impossibilidade do diálogo do Brasil com o Brasil profundo, sertanejo; mas é preferível ver, agora, Euclides sentado frente a Riobaldo, ou a Guimarães Rosa, ouvindo, sobretudo — ouvindo como Goethe ouviu Hafez, o poeta oriental, e ao transformar tolerância em admiração, ensaiou uma caligrafia persa para transcrever a surata. Ouvindo, porque é esse o sentido que deve ser privilegiado no diálogo, o sertão de Riobaldo se transforma nessa geografia profunda, abissal e transformadora.
Ao longo dos últimos 60 anos, a fortuna crítica de Grande Sertão: veredas estudou inúmeros temas na obra. Permanecem como linhas de força do enredo, como temas grandiloquentes, o amor entre os jagunços Riobaldo e Diadorim, a violência no sertão e a ética jagunça, a existência de Deus e do Diabo e o pacto fáustico. Mas qualquer uma dessas eleições, assim como todo exercício de leitura comparada, permanecerá insuficiente diante do inesgotável. Hamlet é maior que Shakespeare; Riobaldo é maior do que Rosa. Como notou Harold Bloom, não se pode ler Shakespeare à luz de Freud, mas é possível ler Freud à luz de Shakespeare — porque, ao fim e ao cabo, deve-se ler, sempre, o menor pelo maior; talvez também seja esse o empreendimento mais razoável: ler a filosofia, as ciências sociais, as psicologias, à luz de Guimarães Rosa. Ou: lê-lo, apenas — o que é ainda maior.
Publicado no Jornal A Gazeta, julho de 2016.