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A caixa preta do samba enredo

Sobre a mercantilização e a opacidade dos critérios de julgamento do samba-enredo nos concursos de carnaval.

O samba-enredo, uma das mais originais criações brasileiras, enfrenta desafios significativos em meio à mercantilização crescente das escolas de samba. Com a imposição de altos custos para participação nas disputas e a necessidade de compositores, o envolvimento da comunidade nas festividades tornou-se cada vez mais restrito. Esse cenário destaca a desconexão das escolas de samba com suas raízes e levanta preocupações sobre o futuro do carnaval.

Diante da destituição do nome e do corpo, das rupturas afetivas, da desterritorialização, da proibição religiosa, linguística e cultural causadas pelo colonialismo e pela escravidão, as comunidades afro-diaspóricas reinventaram um mundo. O carnaval de avenida e as escolas de samba provavelmente são alguns de seus exemplos mais brilhantes e impactantes.

Uma pessoa que tenha mais de quarenta anos seguramente se recorda que os discos de vinil de samba-enredo eram uma constante nas salas de muitas famílias brasileiras até os anos 90. Era comum, nesse contexto, a familiaridade com nomes de compositores como Silas de Oliveira, Aloísio Machado, Noca da Portela, e com nomes de intérpretes como Jamelão, Dominguinhos do Estácio e Neguinho da Beija-Flor. Contudo, nos dias de hoje, salvo aqueles que trabalham diretamente com o carnaval, e um nicho muito limitado de amantes do gênero, poucos reconhecem nomes de compositores contemporâneos como André Diniz, Claudio Russo, Luiz Carlos Máximo, Fionda, Gustavo Clarão; ou intérpretes como Wander Pires, Igor Sorriso, Tinga, Zé Paulo Sierra ou Emerson Dias. Isso não significa que o carnaval perdeu sua relevância ou que a festa tenha diminuído. Muito pelo contrário, em termos numéricos, o carnaval cresceu. Mas há diversos fatores que influenciaram no enfraquecimento da sua popularidade.

A revolução provocada pelos serviços de streaming é sem dúvida um deles. Estas plataformas, ao ampliarem o acesso à música, também diluíram a centralidade de gêneros tradicionais. No âmbito sociocultural, sublinharia também as mudanças paradigmáticas na relação das novas gerações com o patrimônio musical. O samba-enredo, embora seja um patrimônio cultural, enfrenta uma relativização de seu valor simbólico diante de um público mais jovem e globalizado, que constrói suas referências culturais de forma mais heterogênea. Diria, além disso, que a própria natureza do carnaval sofreu metamorfoses. O espetáculo dos desfiles tornou-se tão grandioso que, em muitos casos, sobrepõe-se à própria música, reconfigurando a hierarquia de elementos que compõem a festa.

As escolas de samba, originadas como refúgios fundamentais para reconstruir um mundo fragmentado por experiências de racismo e exclusão, enfrentam desafios desde que a busca por lucro as converteu em commodities. Esse fenômeno está longe de ser uma exclusividade do presente. Contudo, a mercantilização parece ter encontrado pouco ou quase nenhum obstáculo recentemente. E isso talvez seja inédito.

Em uma reviravolta tão irônica quanto trágica, muitas escolas de samba, ou ao menos setores significativos dentro delas, deixaram de resistir a esse avanço comercial. Ao invés disso, assimilaram este processo, tornando-se não apenas cúmplices, mas peças centrais nesta transformação. Provavelmente, as dinâmicas atuais que determinam a escolha dos sambas-enredo representam o aspecto mais crítico dessa metástase. E uma das formas de combater esse modelo talvez seja começar abrindo a caixa preta do samba.

O modelo vigente de seleção do samba-enredo por uma agremiação chega a durar atualmente oito semanas. Para cada semana de eliminatória, a parceria que assina cada samba concorrente paga em torno de dois mil reais para o intérprete que defenderá o samba na quadra da escola. Para além dos dois mil reais por apresentação, os intérpretes cobram uma porcentagem caso o samba seja escolhido pela escola e, caso a escola se consagre campeã do carnaval, o intérprete também exige participação nos lucros.

Mas isso é apenas a ponta do iceberg. A disputa por um samba-enredo em uma escola vai além da necessidade de um intérprete renomado; requer também uma torcida preparada e vibrante. Nesse cenário, surgiu a figura de um profissional contratado pelos proponentes dos sambas para mobilizar torcidas durante as competições nas quadras — são torcidas de aluguel. Estima-se que uma torcida de cinquenta pessoas entoando o samba durante uma apresentação possa custar aproximadamente dois mil e quinhentos reais.

Em uma transmissão ao vivo entre compositores de samba-enredo, organizada pela Rádio Arquibancada e disponível no YouTube, foi revelado que uma parceria proponente investiu cerca de 60 mil reais apenas em torcidas alugadas durante uma disputa neste ano. Além disso, os grupos responsáveis pelos sambas concorrentes têm a obrigação de adquirir ingressos destinados às torcidas contratadas — ingressos que este ano chegaram a 80 reais. Um dos compositores afirmou, na mesma transmissão, que sua parceria gastou cerca de 24 mil reais somente com ingressos nas eliminatórias, referentes a apenas um dos mais de vinte sambas que competem. Somando os investimentos em gravação profissional, fogos de artifício, trajes, emblemas e bebidas, o total pode ultrapassar a cifra de 140 mil reais.

Neste cenário, é claro o quanto o papel do compositor tem sido ofuscado pela dominante presença do investidor do samba. Ao invés de termos o samba assinado por dois ou três compositores, vemos uma lista que inclui cinco, seis, sete e até dez supostos compositores. Quando a mercantilização ganhou força, vários grupos de compositores viram seus gastos crescerem e, consequentemente, seus lucros encolherem — o que desencadeou um movimento ainda mais complexo e predatório, com várias parcerias se unindo e formando verdadeiros oligopólios no samba, verdadeiros "escritórios do samba", adotando estratégias empresariais para maximizar seus retornos.

Considerando esta nova realidade, a presença de um compositor da comunidade nas competições torna-se cada vez mais desafiadora, e a nova geração encontra obstáculos cada vez maiores para se envolver totalmente nas celebrações. O resultado é claro: as escolas de samba, gradativamente, estão evoluindo para serem entidades negras sem negros, promovendo uma festa popular sem povo.

É vital, por exemplo, reavaliar como os direitos autorais são repartidos. Sob a premissa de isenção fiscal, muitas escolas ficam com metade desses direitos, dividindo o restante entre um grupo cada vez maior de compositores e financiadores, que se veem obrigados a buscar alternativas. No centro dessa discussão está o questionamento sobre o papel das escolas de samba em suas respectivas comunidades — e o risco de que não apenas torcidas, mas também figuras tradicionais como as baianas, sejam alugadas.


Publicado na Folha de São Paulo, 5 de novembro de 2023.

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