Bezerra da Silva, embaixador do morro
Tributo poético a Bezerra da Silva, cronista da malandragem e do partido-alto carioca, tecido em referências afro-religiosas.
Pernambucano de nascença, marinheiro dissidente, pintor de parede, violonista clássico, ritmista do Cantagalo. Ao falar nele, quem está sentado levanta, quem está de pé tira o chapéu. Veio ao mundo em uma quarta-feira, dia de Xangô, do poder supremo, o Alafim de Oyó, zelador da justiça entre os deuses e os homens. Jovem, foi para o Rio de Janeiro, frequentou terreiro, e na curimba, é filho de Pai Nilo, do Belford Roxo. Ao toque do Aguerê, do Alujá, do Ilú e do Ijexá, descobriu seu Odú, seu destino: a música.
Como Exu, que percorreu aldeias e atravessou fronteiras, recolheu histórias do passado e do futuro. Como o menino Exu, esperto e avesso, conhecedor das ruas, dos mercados, das encruzilhadas e das veredas, escutou, recolheu e hoje carrega o recado no vento de Oyá, nas águas de Oxum, nas folhas de Ossain e Catendê. Walmir da Purificação, Dunga da Coroa, Roxinho, Dário Augusto, Nilson Reza Forte, Nilo Dias, Darcy do Pandeiro, Moacyr Bombeiro, Pinga, Pedro Butina, Tião Miranda, e tantos. Nessas andanças, ouviu uma pá de gente, compositores que ninguém ouviu falar. E tal qual Elegbara, o deus do corpo, fez da mensagem a sua missão.
Não escreveu tese, livro, sinfonia, lei, tratado, não construiu prédio ou ponte. Mas, considerado em qualquer jurisdição, é da estirpe dos civilizadores destratados, aqueles que não frequentam conferências nem são ensinados nas escolas, como Mestre Didi, Candeia, Menininha, Pastinha, Lia, Tia Prisciliana, Luísa Mahin, Licutan, Dandara, Senhora, Ginga, Edith ou Eulália. Seu recado é a fresta, o papo reto, núcleo duro do real, seu recado é fissura, cisão, cobra criada e veneno, nem pobre nem rica, rima que não se submete, palavra-trincheira. Narrador da malandragem, cronista da geral, de heróis sem heroísmos, de macunaímas anônimos, de cambonos, defuntos, sogras, pais de santo e caguetes. O cara é fechado com Aluvaiá, e como filho de Pambu Njila, tem trânsito livre, com voz e microfone, é mensageiro e é caminho, signo e significado. Em côco, samba, breque ou partido, a forma do verso é uma só: seu verso é uma colisão.
Partideiro indigesto, sem nó na garganta, sem papas na língua. Cantou o Morro do Juramento, Cajueiro, Babilônia, Engenho da Rainha, Curral, Morro Agudo, Cidade de Deus, Nova Holanda e Acari, Vila Aliança, Coroa, Formiga, Abacaxi, Alvoroço, Sabão e Cantagalo. Cantou o insignificante e grandioso, pobre favelado, agá de playboy, moral de bandido, caô de gambé, migué de mulher, homem traído, língua de tamanduá, Lei de Murici. E quem não gostou, come menos.
O cara é ponto fora da curva, é tradição e é além. Como o menino Bará que joga a pedra hoje e acerta o inimigo ontem, seu tempo é outro, seu tempo é quando. Sem instituição, uniforme, homenagem, chá da tarde ou feijoada, sem quadra de escola, baiana, bateria, alegoria, nem Ciata nem Surica. O boné brad brim é um terno, babilaque é lápis e papel no bolso, fita na mão e uma dura ali na esquina.
Desde o dia 23 de fevereiro de 1927, lá se vão 90 anos, embaixador. E do que me cabe, mais do que nunca, ando falando de você para a molecada, do verso e da batucada, do recado e do conselho, e como tem dito por aí um filho seu, tal de Mano Brown, tenho falado que o verso antes de tudo é uma rima e que se a palavra vale um tiro, é preciso muita munição. A galera entende, gosta, arrisca um verso, brinca de partideiro, faz rap à vera, pinta muro, queima cigarro no peito, matar leão é pinto. A gente agradece. Sua benção, mestre Bezerra da Silva.
Publicado no Jornal A Gazeta, fevereiro de 2017.