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Carnaval e financiamento público

Sobre o debate acerca do financiamento público das escolas de samba e a lógica necroestatal que reduz o carnaval ao turismo.

No último dia 5, na Câmara Municipal, o vereador Davi Esmael protagonizou com Edivaldo Teixeira, atual presidente da Lieges, um debate sobre o financiamento público das escolas de samba. De modo geral, as questões levantadas pelo vereador foram respondidas a contento, mas, como é de praxe, a questão fundamental que esse debate revela não foi levantada — isto é: a dimensão estreita que orienta a compreensão do que é o carnaval e o que representam as escolas de samba.

Na ocasião, Davi comparou o poder turístico de lucratividade do Desfile à Feira do Mármore e Granito. A comparação, que soou pior que surdo no primeiro tempo e tamborim atravessado, revelou duas coisas: 1) o vereador não entende patavinas de samba; 2) há um senso comum de que a viabilidade do desfile precisa ser mensurada pelo apelo turístico e pela lucratividade.

A visão é tributária à lógica necroestatal que avança orquestrada por uma agenda religiosa que se associou ao grande capital, impondo maneiras diversas e difusas de extermínio da cultura negra. É preciso estar em absoluta vigília: a exclusão de certos signos culturais e a despotencialização de teias complexas de sentido e significados reduzem toda riqueza a uma compreensão turística e parafolclórica. Essa visão sempre esteve presente no projeto oficial de Brasil, e se por algum tempo convivemos com a promessa da superação desse necroestado, foi só para acordar de uma sesta e entender que seus agentes, em nome de Deus e da família, não escondem dentes e canetas.

A escola de samba é a escola que deu certo no Brasil. Assim como os terreiros de umbanda, candomblés e omolocôs, reorganizou e resignificou a noção de família e pertencimento, comunidade, ancestralidade e memória. O que nos desafia não é fazer crer que o desfile é um evento lucrativo, é fazer compreender que essas instituições são transmissoras de uma cultura que transformou chibata em baqueta e criou um Brasil possível. E por isso mesmo o financiamento em debate não é concessão, esmola ou favor, é obrigação prevista pela Constituição Federal. Se é que isso ainda diz alguma coisa.


Publicado no Jornal A Gazeta, novembro de 2019.

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