Dona Júlia e o acadêmico consorte
Sobre o apagamento de Júlia Lopes de Almeida, excluída da fundação da Academia Brasileira de Letras por ser mulher.
Seis meses antes da fundação da Academia Brasileira de Letras, exatamente no dia 12 de dezembro de 1896, Lúcio Mendonça (cadeira nº 11) publicou um artigo no jornal Estado de São Paulo elencando os quarenta nomes que provavelmente fariam parte do seleto grupo de imortais. Além de Machado de Assis, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, Graça Aranha, Joaquim Nabuco, Luís Murat, Araripe Júnior, Visconde de Taunay, Sílvio Romero, José Veríssimo, José do Patrocínio e outros velhos conhecidos, figurava na lista o nome de Júlia Lopes de Almeida. A única mulher.
Dona Júlia, como era conhecida, nasceu em 1862, tinha, portanto, 32 anos na ocasião. A esta altura, já havia publicado o livro de contos Traços e iluminuras (1887), o romance A família Medeiros (1893), o folhetim A viúva Simões (1895) e as crônicas do Livro das Noivas — de receitas e conselhos domésticos (1896). Além disso, já era colaboradora em jornais e revistas de grande estatura como o Almanaque da Gazeta de Notícias e o Almanaque Literário de São Paulo.
A reunião final que decidiu a lista definitiva dos imortais fundadores da ABL, no entanto, deliberou a supressão do seu nome — ou pior: a substituição. Na época, justificou-se que, em função da inexistência de um artigo que regulamentasse a participação de mulheres na Academia, a participação de Dona Júlia era inviável. Como demonstra a qualidade e o volume de sua obra, Dona Júlia já integrava o primeiro time de intelectuais brasileiros do final do século e, naturalmente, acompanhou essa celeuma com grande interesse e expectativa. Na mesma reunião, um dos fundadores teve uma célebre ideia para contornar o problema: "Como Dona Júlia não pode entrar, dá-se uma satisfação incluindo Filinto".
Filinto de Almeida nasceu em Portugal em 1857, publicou poesia e teatro; é dono de uma obra pouco significativa. Filinto foi o marido de Dona Júlia e é o imortal fundador da cadeira nº 3, um imortal consorte, digamos. Hoje, o nome Júlia Lopes de Almeida não consta na História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi — bibliografia obrigatória nos cursos universitários –, não consta nos 5 volumes da História da Literatura Brasileira, de Massaud Moisés, não consta em nenhum dos 6 volumes de A literatura no Brasil, coleção dirigida por Afrânio Coutinho e Eduardo de Faria Coutinho, e não consta em muitos outros livros da prateleira de historiografia literária.
Este é um dos casos de apagamento mais cruéis da história da literatura deste país.
Júlia Lopes de Almeida escreveu uma vasta obra que inclui crônicas, contos, pelo menos dez romances publicados, livros infanto-juvenis, dramaturgias, ensaios, conferências e traduções. Sua obra tratou de diversos temas, mas, sem dúvida, tanto na narrativa de ficção quanto nos ensaios e conferências, teve como horizonte privilegiado de sua escrita a crítica do lugar da mulher na sociedade de fim do século. Em crônica publicada no jornal carioca O País (1907), Dona Júlia registrou: "Por que não o hei de enganar do mesmo modo? Em consciência, não há homens nem mulheres: há seres com iguais direitos naturais, mesmas fraquezas e iguais responsabilidades… Mas não há meio dos homens admitirem semelhantes verdades. Eles teceram a sociedade com malhas de dois tamanhos — grandes para eles, para que seus pecados e faltas saiam e entrem sem deixar sinais; e extremamente miudinhas para nós".
Mas não é apenas a contundência da crítica social que coloca sua obra entre as mais importantes deste período (ombreada com Lima Barreto, como admitiu João do Rio em entrevista); para além da maturidade das análises dos arranjos sociais e de gênero, há ainda a riqueza das imagens, a sofisticação narrativa e, sobretudo, aquilo que do ponto de vista formal mais chama a atenção: um domínio primoroso da frase, da sintaxe, do ritmo. O texto de Dona Júlia não tem hesitação, é fluido, límpido, seguro e pulsante — nas suas próprias palavras: "o que não quero é escrever meramente; não penso em deliciar o leitor escorrendo-lhe n'alma o mel do sentimento, nem em dar-lhe comoções de espanto e de imprevisto. Pouco me importo de florir a frase, fazê-la cantante ou rude, recortá-la a buril ou golpeá-la a machado; o que quero é achar um engaste novo onde encrave as minhas ideias, seguras e claras como diamantes: o que quero é criar todo meu livro, pensamento e forma, fazê-lo fora desta arte de escrever já tão banalizada, onde me embaraço com raiva de não saber nada de melhor. (…) Quero escrever um livro novo, arrancado do meu sangue e do meu sonho (…)" (Ânsia Eterna, 1903).
Publicado no Jornal A Gazeta, dezembro de 2017.