Drummond e o desenvolvimentismo
Sobre o poema de Drummond contra a destruição do Salto de Sete Quedas pela hidrelétrica de Itaipu, e a política desenvolvimentista.
No dia 9 de setembro de 1982, Drummond publicou em página inteira, com letras garrafais, um poema intitulado "Adeus a Sete Quedas" no Jornal do Brasil. O poema manifesta um sentimento de absoluta consternação a propósito da destruição do Salto de Sete Quedas em função do lago da hidrelétrica de Itaipu. Um mês depois da publicação do poema, Drummond volta ao assunto, no mesmo jornal, com a crônica "Sete Quedas poderia ser salva". Trata-se basicamente da transcrição de uma carta do engenheiro que projetou Paulo Afonso, Octávio Marcondes Ferraz, apresentando ideias preservacionistas: "Aproveitamento, em vez de imolação", resume o poeta.
O poema, triste e contundente, tem como introito duas epígrafes que dão o tom. A primeira, um dístico do simbolista Alphonsus de Guimaraens: "Sete damas por mim passaram / E todas sete me beijaram". A segunda, assinada pelo parnasiano Raimundo Correia, lamenta "Aqui outrora retumbaram hinos". Em seguida, os versos de Drummond. Transcrevo os mais incisivos: "Sete quedas por mim passaram, / e todas sete se esvaíram. / Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele a memória dos índios, pulverizada (…) / por mão do homem, dono do planeta. // Aqui outrora retumbaram vozes / da natureza imaginosa, fértil / em teatrais encenações de sonhos / aos homens ofertadas sem contrato. // Sete quedas por nós passaram, / e não soubemos, ah, não soubemos amá-las, / e todas sete foram mortas, / e todas sete somem no ar, / sete fantasmas, sete crimes / dos vivos golpeando a vida / que nunca mais renascerá."
O poema de Drummond evoca uma pauta política tão urgente quanto preterida, os impactos do desenvolvimentismo. E, como não podia ser diferente, o assunto nos projeta ao atual cenário pré-eleitoral. Neste contexto, chama a atenção que os planos político-econômicos apresentados pelos presidenciáveis ainda se concentram na conhecida antítese: de um lado, defensores de um liberalismo econômico (que não dispensa o conservadorismo moral, tipicamente latino-americano) e, do outro lado, a defesa de um intervencionismo estatal moderado como regulador da macroeconomia, sobretudo. Mas, grosso modo, há um ponto comum entre os projetos aparentemente divergentes: ambos apostam em uma política desenvolvimentista como única alternativa para diminuição da desigualdade social.
Claro, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo, por isso mesmo qualquer projeto que não vise à redução da desigualdade é no mínimo irresponsável. O problema é que faz parte do pacto oligárquico que rege esse país a naturalização de que a única forma de fazer isso é produzindo riqueza — o que historicamente tem sido traduzido como esgotamento de recursos naturais. A vantagem desse modelo é óbvia: não tocar no bolso dos ricos. As alternativas seriam distribuição de renda, taxação de grandes fortunas, questionamento da instituição da herança. Mas quem quer falar no assunto? Então, que haja poetas.
Publicado no Jornal A Gazeta, agosto de 2018.