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ensaio2017

É preciso que o canto não cesse nunca

Um ensaio sobre a natureza irredutível do poema, com Octavio Paz, Heidegger, Gadamer e Ferreira Gullar.

A grandeza do poema não se mensura com parâmetros incontestes, também não se quantifica a eficácia da imagem ou o alcance da metáfora. Octavio Paz escreveu que "o poema não é uma forma literária, mas o ponto de encontro entre a poesia e o homem". Cada poema é uma entidade autônoma, única, irredutível e inigualável. O poema contém, suscita e emite poesia. A poesia é imponderável. E como se trata de uma peça singular e inimitável, não há nada que seja essencial a ela. A rima não é essencial, a métrica não é essencial, o tema não é essencial, não há um vocabulário que seja essencial, o verso não é essencial e tampouco a palavra, como já provou Wlademir Dias-Pino.

O único ponto em comum entre todos os poemas é que eles se distinguem dos utensílios. E esse caráter singular é compartilhado por outras obras de arte, como já foi afirmado. O utensílio é fruto da técnica, a técnica é repetição que se aperfeiçoa ou se torna obsoleta, é herança e transformação: "A pedra triunfa na escultura e se humilha na escada. A cor resplandece no quadro; o movimento do corpo, na dança. A matéria, vencida ou deformada no utensílio, recupera seu esplendor na obra de arte". "O fuzil substitui o arco. A Eneida não substituiu a Odisseia" (Octavio Paz). No entanto, a pedra, a cor e a palavra não se encerram em si mesmas; ao contrário, são pontes que nos levam a outros lugares porque promovem uma expansão da experiência na linguagem e além da linguagem.

Martin Heidegger argumentou que o mundo é uma constituição existencial da linguagem, é só nela que as coisas têm sentido. A linguagem é o fundamento de toda realidade, é nela que o ente se mostra e aparece, vem a ser e é, ela funda e articula a relação entre o espírito e o mundo. É "a casa do Ser". E tal qual a doença do esquecimento que acometeu Macondo, toda crise é antes uma crise da linguagem. Paul Valéry, ao distinguir a palavra que usamos na comunicação diária da palavra poética, afirma que a primeira é como a moeda de latão, isto é: ela significa algo que ela mesma não é; a segunda é o pedaço de ouro de outrora que, em contrapartida, tinha o mesmo valor do que significava. Hans-Georg Gadamer, ao explicar a comparação de Paul Valéry, em ensaio de 1970 intitulado Os poetas estão emudecendo?, escreve que "a palavra poética não se refere apenas a algo, de modo que somos lançados para além dela a fim de aportar em algum outro lugar qualquer (…) Na medida em que somos lançados para além da palavra poética, não somos senão remetidos uma vez mais para ela mesma".

"Há ainda uma tarefa para o poeta em nossa civilização?", eis a pergunta que orienta o ensaio de Gadamer (lembra-nos Hölderlin: "E para que poetas em tempos de indigência?") e logo se desdobra em outras perguntas: "Há ainda uma hora da arte em um tempo, no qual a inquietude social e o desconforto com a massificação anônima de nossa vida social são sentidos por toda parte e no qual sempre se levanta uma vez mais a exigência de redescoberta ou de refundação de autênticas solidariedades? Quando continuamos tomando a arte ou a poesia por um momento integral do ser humano, não se trata aí de um subterfúgio? Toda littérature não precisa ser agora littérature engagée? Onde a consciência não é preenchida senão pela Science, isto é, pela idolatria do progresso científico, ainda há uma composição tal de palavras que todos nos sentimos em casa nessa composição?"

"O poema é a linguagem erguida", mais uma vez Octavio Paz, por isso o exercício poético é sempre revolucionário. Gadamer conclui seu ensaio afirmando que é preciso saber se os nossos ouvidos ainda estão disponíveis, e cita Paul Celan — "Onde o amor não se apresenta / não enuncia a palavra". Termino citando Ferreira Gullar, a quem dedico o texto: "É preciso que / o canto não / cessasse / nunca. Não pelo / canto (canto que os / homens ouvem) mas / porque can- / tando o galo / é sem morte".


Publicado no Jornal A Gazeta, julho de 2017.

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