Ética e educação
Um ensaio sobre Sócrates, Platão e a impossibilidade de ensinar a Ética como uma técnica.
Atribui-se a Sócrates, o filósofo grego, uma configuração de pensamento inaugural (a filosofia, como a conhecemos) que nunca se separou de uma reflexão sobre o método. Desde o momento em que Sócrates se opôs à educação sofista praticada na Grécia antiga, em função do seu afastamento da Verdade, pode-se dizer que a história do pensamento ocidental abraçou a história da educação — pelo menos no seu mais amplo sentido, o de formação, o que os gregos nomearam Paideia. Ao contrário dos sofistas, Sócrates teve grande interesse pela excelência e pela virtude. A riqueza e a saúde eram importantes, de alguma forma, mas, para Sócrates, sobretudo a ascese do espírito poderia construir cidadãos melhores, aqueles que, conhecendo a Verdade, necessariamente seriam bons.
O sentido de formação humana vinculado à Ética é fundamental. O tema é retomado por Platão, seu aluno, nos seguintes termos: o saber da Ética (a Virtude) pode ser ensinado? Uma pessoa pode "ensinar virtude" a outra pessoa? A conclusão platônica é mais complexa do que o lacônico sim ou não: a Ética não se aprende como uma ciência teórica. Distinta da medicina, da matemática ou da astronomia, por exemplo, a Ética não é uma técnica, portanto ela não pode ser ensinada. Um professor que se dirige ao quadro negro e inicia uma aula de Filosofia escrevendo a palavra Ethos para explicar sua etimologia não está ensinando Ética; quando muito, trata-se de uma lição de História da Ética — o que é substancialmente diferente.
Em outras palavras: a Ética não é uma habilidade que ora se lança mão e utiliza, ora se dispensa e guarda, como uma dimensão dispensável do Homem. Ao contrário: ela é o terreno que sustenta todas as dimensões da vida. E por isso mesmo está vinculada à formação. Parte dos nossos problemas ainda se assemelha aos enfrentados por Sócrates, na antiguidade; por outro lado, nosso contexto aponta questões que ainda precisam ser enfrentadas: por que a educação não é um valor para a sociedade brasileira? Como superar sua mercantilização? Nós agimos na direção da emancipação? Como retomar a dimensão ética da formação? Como enfrentar a acomodação das mentalidades? E aquela que a cada dia soa mais fatídica: que projeto de país orienta a educação?
Publicado no Jornal A Gazeta, abril de 2018.