Paradoxos do Lulismo
Uma avaliação ambivalente do lulismo: ascensão social real, mas também conciliação com o grande capital.
O aquecimento do debate político dos últimos anos, ao mesmo tempo que escancarou o adoecimento moral dos partidos que representaram uma perspectiva de construção democrática a partir de 1980 — PT e PMDB —, exibiu a fragilidade intelectual da classe universitária. Engolir os textos de Olavo de Carvalho e de L. F. Pondé nunca foi fácil, mas ouvir os discursos de Marilena Chauí — especialmente o famoso pronunciamento sobre a classe média — foi ainda mais penoso. Os primeiros são reféns de uma plateia medíocre, por isso mesmo limitados a um discurso raso. Mas no caso de Chauí, o evidente rigor na sua carreira acadêmica torna a situação constrangedora.
A erudição destituída de política é estéril. Mas a militância que sufoca a reflexão intelectual não é menos contraproducente. A estratégia, sobretudo de uma esquerda lulista hegemônica universitária, tem sido a divulgação de uma narrativa que exige a adesão como requisito democrático porque outorga a si mesma o posto de guardiã do bem comum. Nessa perspectiva, não aderir é aumentar o coro antidemocrático, fascista ou, no mínimo, "isentão". Do ponto de vista crítico, é um posicionamento grosseiro e frágil.
Por um lado, é importante notar a significativa ascensão social das classes mais pobres em decorrência dos vários programas implantados com sucesso ao longo do lulismo. Lula tornou-se, de certo modo, a materialização do intelectual orgânico que "honrou a herança dos deserdados", como escreveu Florestan Fernandes. Por outro, é preciso considerar que foi o crescimento econômico mundial aliado à valorização das commodities, durante seu primeiro mandato, que criou uma margem de lucro e possibilitou ao mesmo tempo agradar o grande capital financeiro e fazer concessões às classes populares.
Vamos além: por um lado, é preciso considerar que Lula lidou de forma hábil com a crise de 2008. Diante da conjuntura em que os Estados precisaram muitas vezes aplicar capital para salvar as empresas, Lula conseguiu resolver esse problema porque continuou sendo conciliador. Afinal, um programa como o Minha Casa Minha Vida é tão importante para as classes populares quanto para as construtoras. Por um lado, Lula foi sem dúvida um bom gestor ao propor reformas graduais a longo prazo; por outro lado, o cenário mundial herdado por Dilma foi o pior possível e, aliado à sua inabilidade política, foi o início do colapso do projeto lulista de conciliação. Talvez o mais fundamental: Lula representou a consciência de que a desigualdade social não é um acaso histórico no Brasil. Mas, por outro lado, é preciso considerar que uma transformação estrutural não se faz sem confronto.
Publicado no Jornal A Gazeta, abril de 2018.