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ensaio2018

Quando a palavra principia

A partir de Ítalo Calvino, sobre a intolerância como recusa da palavra do outro e sobre o que pode um poema.

"Em alguns casos, o intolerante é mortífero; em todos os casos é ele próprio um morto." A frase é de Ítalo Calvino e foi anotada em uma das conferências publicadas no volume Discurso sobre literatura e sociedade. Numa reflexão sobre linguagem e política, Calvino entende a ausência de diálogo, resultado da intolerância, como um desejo de morte. Não querer mais ouvir, recusar a palavra do outro, significa acreditar na própria completude. Intolerância, nesse sentido, é a ambição de que o fora não seja similar à nossa interioridade. Isso significa invejar a condição dos mortos. Calvino chama esse processo de "cadaverização do mundo". Trata-se, portanto, de um problema que se manifesta na linguagem: é a interrupção do diálogo, um desinteresse manifesto pelo outro, que é o abandono de si mesmo. Nessa situação, o que pode um poema?

"O que pode um poema contra todo / mal do mundo?" Os versos são de Wilberth Salgueiro e atualizam o problema abordado na famosa elegia de Friedrich Hölderlin: "para que servem poetas em tempos de indigência?". Guardadas as diferenças e conjunturas, ambos pressupõem um mundo adoecido e indagam a função da literatura no contexto patológico. As perguntas poderiam se desdobrar: a literatura pode melhorar a vida dos que sofrem? Um verso pode amenizar a dor? Se um poema não dá casa, saúde, educação ou cidadania, em que sentido pode combater a miséria?

O poema é, sim, força de combate e, ainda que não forneça condições materiais para sequer uma sobrevida, atua intensamente sobre a penúria da experiência. Sobre o empobrecimento do sujeito que se perde no cotidiano e na repetição. Se a intolerância sobre a qual se referia Calvino é também um sintoma de indigência, e se manifesta na interdição da palavra, o poema é sobretudo urgente porque é um retorno à palavra. Não à palavra gasta, ao hábito, mas à palavra inaugural. O poema é desejo de vida. Sobre o assunto, o poeta alemão Johannes Bobrowski e a poeta portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão nos legaram versos contundentes: "Onde o amor não se apresenta / Não se enuncia a palavra"; e "Onde / as mãos derrubam arestas / a palavra principia."


Publicado no Jornal A Gazeta, maio de 2018.

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