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artigo2017

Quando o carnaval passar

Uma crônica afetiva sobre os sambistas, músicos e amigos de uma comunidade de samba capixaba, para além da festa do carnaval.

Quando o carnaval passar, Chuchu vai continuar nos impressionando com seu requebrado, com uma flexibilidade que vai de uma calçada à outra da rua 7 de Setembro. Ainda ficaremos admirados com a dupla Anderson Negão, no pandeiro, e Farley, no tantã. E não nos cansaremos de compará-los a Nenê Brown e Miudinho. Quando o carnaval passar, aguardaremos com ansiedade a hora que Lucianinho, Jefinho e todos os outros lobos do samba começarão a atacar no Bar da Zilda. E enquanto isso, porque ninguém é de ferro, abriremos os trabalhos no Rominho, com uma boa cerveja, batendo um papo com Patrick, torcendo para que Edinho Barcelos passe por lá para contar algumas boas histórias dos célebres sambistas que passaram por aqui. Com sorte, ele dará uma canja e lembrará os desmemoriados que quem é rei nunca perde a majestade. A gente vai olhar e comentar que Gordinho do Surdo é pequeno perto do nosso Edinho.

Quando o carnaval passar, a dupla Ferinha e Luan, os ibejis da família Barcelos, ainda estarão por lá. Perguntaremos pelo Lucas, o irmão mais velho, pandeirista dos melhores, e comentaremos, como de praxe, que em matéria de música, essa família só tem faixa preta. Léo de Paula continuará sendo o percussionista que melhor transita entre o popular e o erudito. Ainda ficaremos impressionados com sua capacidade de tocar partido-alto e, em seguida, executar um complexo concerto escrito pelo nosso amigo Dori. Quando o carnaval passar, Marcão Gabriel, outro de família com pedigree de samba, também estará por aquelas bandas. Marcão é clínico geral, ataca de surdo, congas, pandeiro, cuíca, sem tempo ruim. Lembraremos o saudoso Floricultura, na Adalberto Simão Nader e, claro, o seu grupo Jovens Demais. Grupo que fez história — pelo menos a nossa. Mencionaremos com afeto nossos amigos Pedrinho Baltazar, Caique e Pablo, companheiros nessas noitadas.

Quando o carnaval passar, ainda encontraremos Mestre Edu tocando sua cuíca pelas ruas do Centro e recebendo reverências por onde passar. Papo Furado, que a essa hora já deu muita cachaça para o cavaco, cantou Mineira, tocou seus jongos e fechou a feira, não deixará o cachimbo cair tão cedo. Nós continuaremos também lá, noite adentro, esperando Paulinho sair de casa e se juntar à turma com seu reco-reco envenenado, inigualável. Tarde da noite, ainda encontraremos Pedrinho Oliveira, com um banjo ou um cavaco na mão, pedindo mukuiu, querendo saber notícias de Mãe Néia e das festividades do candomblé. Quando o carnaval passar, ainda pediremos aquela cerveja gelada para o Vaguinho e pensaremos que ele é um cara do bem, daqueles que a gente quer sempre ter por perto. Altamir ainda vai estar por ali, Marquinhos de Castro ainda terá poemas à mão, e quem sabe a gente dê a sorte de encontrar o bailarino Gil Mendes, só para comentar, em seguida, como esse cara é sensacional. Quando o carnaval passar, ainda vamos topar com a Nieve Matos e a turma do Repertório Artes Cênicas, Dinho Marques e a turma do Grupo Z, e lembraremos que esse pessoal coloca de pé espetáculos grandiosos. Quem não se lembra de Bernarda, Insone, Dom Casmurro?

Quando o carnaval passar, Célio vai continuar por aquelas bandas trocando uma ideia com Saulo Santos, Carol e Renan na calçada da Gama Rosa. Ainda bem. A gente vai continuar tomando uns bons drinks e tentando tirar uma boa risada da Cacá, na Casa de Bamba. Waldo Motta vai continuar sendo um mito que só desce o Olimpo vez ou outra para manter o mistério e nos impressionar. A Débora vai continuar desfilando os turbantes mais lindos do Centro e operando com a maior competência a sonorização do samba. A Gisa vai sambar com a elegância que só faz par com o banjo do Guilherme Nascimento ou o pandeiro do Rodrigo Nogueira.

Quando o carnaval passar, Cecitônio Coelho vai continuar nos deixando de boca aberta com suas frases de bom gosto tocadas pelo 7 cordas mais virtuoso do pedaço. E entre uma dose e um acorde, vai nos falar dos estudos que está fazendo de violão de 8 cordas. Lembraremos com muito respeito e admiração do seu irmão, o maestro e flautista Datan Coelho e da Lira Mateense, orquestra de São Mateus dirigida pelo seu pai. Também falaremos dos discos da Marcela Lobo, que adoramos, e lamentaremos que ela não cante aquelas coisas lindas aqui para a gente. Quando o carnaval passar, Cecitônio e Silvana continuarão nos contando histórias que ainda não vivemos e mostrando, um pelo outro, o afeto que desejamos encontrar.

Quando o carnaval passar, ainda vamos encontrar João Moraes pelas ruas do bairro e comemorá-lo como um dos nossos grandes cronistas. Moisés Nascimento vai continuar por ali assistindo aos jogos do Galo, Edivan Freitas vendo o Flamengo e pensando uma canção — e eu torcendo pelos dois. Saulo Ribeiro ainda estará na loja da Editora Cousa colecionando histórias para esta vida ou para um próximo livro — o que, no fundo, para a gente, é quase a mesma coisa. Luiza ainda estará fazendo inveja nas crianças do parquinho com seu cabelo e suas leituras. Continuaremos encontrando o Jânio por aquelas bandas e querendo saber a programação do Odomodê para a semana. Ainda ficaremos por ali, à espreita, munindo-nos das boas ideias e da energia de militância da Muriel. Acompanharemos os projetos do Raiz Forte com grande estima e muito interesse. Quando o carnaval passar, o Chê continuará passeando no final do dia para garantir um território e o Maurício ainda será um intelectual admirado, que faz samba e pimenta.

Por fim, quando o carnaval passar, continuaremos nos reunindo diariamente em cada uma daquelas mesas, em cada uma daquelas ruas, por puro afeto e insubmissão.


Publicado no Jornal A Gazeta, março de 2017.

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