acervosobre
artigo2018

Sem disfarces

Sobre o fracasso da Nova República em promover uma real transição democrática ou reduzir a desigualdade social.

O fim da Ditadura Militar deu início a um processo de redemocratização intitulado Nova República. A característica fundamental desse período, que terminou com as manifestações de junho de 2013, foi a conciliação. Isto é, sucessivos acordos entre diferentes agentes políticos que a princípio eram antagônicos, mas conviveram até certo ponto harmonicamente. A convivência política, em diversos níveis, entre os apoiadores e adeptos do Regime Militar, como Sarney, e os que lutaram pela democracia, alguns inclusive torturados, como Dilma Rousseff, talvez seja o maior exemplo desse exercício de conciliação.

No que diz respeito à efetiva redemocratização, a Nova República foi um fracasso. E não deu certo porque saímos da ditadura sem um processo real de transição democrática. O Brasil é singular no conjunto de países que viveram uma ditadura: além de não termos prendido um único torturador, até hoje não exigimos uma retratação das Forças Armadas. Muito pelo contrário, as Forças Armadas continuam nas ruas, travestidas de Polícia Militar, com uma presença exacerbada na vida pública e atuando como poder moderador do Estado.

A Nova República também foi um fracasso porque não conseguiu introduzir o país em um projeto real de extermínio da desigualdade. Nem o governo Lula, sem dúvida o mais conciliador desse período, teve o projeto na agenda. Afinal, qualquer economista sério sabe que um processo efetivo de redução da desigualdade deve necessariamente diminuir o nível de riqueza de uma população mais abastada; não adianta concentrar os esforços em capitalizar os pobres. Mas o fim do lulismo marcou também o fim da Nova República e vivemos hoje uma espécie de vácuo esperando alguma coisa acontecer.

O saldo da Nova República é a consciência tardia de que nossa democracia é mais frágil do que pensávamos e que há pelo menos dois projetos antagônicos para este país, que se manifestam em visões diferentes e implicam, inclusive, estilos de vida diferentes. A sociedade está partida e suas partes falam idiomas diferentes; portanto, a política não é mais uma questão de diálogo, mas uma questão de afetos. O desafio daqui para frente talvez seja aprofundar radicalmente a consciência dessa diferença sem empurrar nada para debaixo do tapete.


Publicado no Jornal A Gazeta, julho de 2018.

Continua em