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artigo2015

O potencial renovador da escola

Sobre a Fundação Casa Grande, o CPCD de Tião Rocha e o eros pedagógico como antídoto para uma escola adoecida.

Em 2007, conheci a Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, no Vale do Cariri, no Ceará, e fiquei encantado com a possibilidade de uma educação efetivamente integrada às necessidades objetivas de uma comunidade. Deslumbrei-me com a educação que, baseada no diálogo e na responsabilização do todo e das partes que compõem esse todo, preza pela transmissão cultural sob uma perspectiva local e global, mas sobretudo pelo desenvolvimento da socialização. Fiquei quinze dias na Fundação e aprendi, na prática, com Alemberg Quindins, idealizador da instituição, provavelmente um leitor de Paulo Freire ou, no mínimo, um caboclo da mesma falange, que o processo de ensino/aprendizagem precisa ser orgânico para fazer sentido.

Aos que se interessam pelos requintes de aventura, ouvi falar da Fundação Casa Grande em uma palestra na Prefeitura de Vitória no mesmo ano e convenci três amigos a atravessarem o sertão em um Ford Ka, numa viagem memorável: o pianista Joaquim Henrique, recém-chegado da Áustria, a escritora Anne Ventura e o compositor Zé Moreira. Foram três dias de viagem até chegarmos à Fundação Casa Grande. Era uma tarde de terça-feira do mês de julho, não havia adultos no local, só crianças. Uma mistura de road movie, Vidas Secas e peregrinação epifânica. Alemberg nos ofereceu duas semanas de hospedagem e alimentação em troca de oficinas de música e criação literária. Hoje, não tenho dúvidas de que aprendemos muito mais do que tínhamos para ensinar.

No final de 2014 tive um outro encontro fundamental, dessa vez em Barbacena, com o antropólogo e educador Tião Rocha. Idealizador e presidente do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento), Tião criou metodologias de ensino que dispensam a institucionalização como conhecemos, no formato tradicional. Seu laboratório criativo foi o Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do Brasil — mas também uma das regiões mais ricas do Brasil, ele faz questão de ressaltar o paradoxo. Em uma noite fria de Barbacena, três horas de conversa particular no seu sítio mudaram significativamente os rumos da minha formação como professor. Parte considerável das reflexões a seguir nasceu desses dois encontros. E em parte devem ser atribuídas a eles — que preferiram não registrar em livros, mas que não se furtam a contagiar com esse eros pedagógico quem se aproxime.

Apesar de Tião e Alemberg me mostrarem uma educação não institucionalizada, ainda acredito que não há nada mais urgente que a escola. O problema é que a naturalização da perda do sentido da educação ameaça todos os dias esse lugar privilegiado para a reflexão, o diálogo e a autocriação. A escola como espaço de superação dos reducionismos e da acomodação das mentalidades está comprometida porque está atrelada a critérios econômicos e porque não há reconhecimento real do seu poder emancipatório pela sociedade — inclusive por parte dos professores.

Há muita pesquisa sobre educação no Brasil, mas talvez haja pouca reflexão nas escolas, principalmente, sobre o tema. Os professores não se interessam por não terem tempo, por serem desestimulados economicamente pelos salários que recebem, ou por mil outros motivos. E em muitos momentos a falta de debate reflete a falta de estofo. Essa perda do eros pedagógico — ou seja, o desejo de saber do professor e do aluno — é o principal sintoma de uma escola adoecida.

Mas educação não é sinônimo de institucionalização; portanto, para educar uma criança, são palavras de Tião Rocha, é preciso mobilizar uma tribo inteira. Isso significa que quando a escola está adoecida e não está apta a cumprir seu papel é porque a sociedade está igualmente adoecida e também inábil. A educação é uma ideia que se realiza na prática, tem sob os pés o terreno da ética e não se desliga, como apontou Adorno (em Educação após Auschwitz), da sociologia e da política.

Quem passa por lá sabe que a escola atual está longe de ser um lugar em que se promova respeito porque o processo de ensino se divorciou da ética. Ao mesmo tempo, inflada de ausências, o gosto pela objetividade mesquinha, barata, quantitativa, tem espaços privilegiados — na universidade não é diferente. A valorização das áreas técnicas desprovidas do poder de autocriação, criatividade e humanização nubla cotidianamente uma educação estética e urgente que privilegie o diálogo e o exercício de alteridade.

A sociedade não urge por matemáticos virtuoses e precoces, atletas de óculos, antissociais, mas por crianças e jovens humanizados, críticos, afetuosos, com vontade de promover transformações sociais efetivas. A responsabilidade da escola hoje é fomentar uma revolução da sensibilidade. Menos TIC (tecnologia da informação e da comunicação) e mais TAC (tecnologias de aprendizagem e convivências), mais uma das lições de Tião. E essa revolução só será possível quando privilegiarmos um currículo voltado para as artes e para a filosofia, em ampla perspectiva. Ao contrário do que afirma o senso comum, a estética não cria anestetização, não nos desliga do mundo, nem dispensa processos de racionalização, mas nos põe em contato com o real que não pode ser apreendido exclusivamente em processos racionais, e portanto amplia nossa relação com o mundo, aprimorando a aplicação de princípios éticos.

Grupos sociais que hostilizam Paulo Freire e reivindicam o fim de um processo de instauração da democracia — ou seja, protestam pelo direito de nunca mais protestar —, cidadãos que incitam o estabelecimento do ódio, da punição, da coerção e do cerceamento, foram vítimas do mesmo processo deficitário que hoje desejam restaurar. E é preciso romper esse círculo sintomático e vicioso. Se é necessário que as escolas se ocupem de uma formação que dê conta das demandas objetivas da comunidade, como me ensinou Alemberg Quindins, não há nada mais urgente do que uma escola feminista, de combate ao racismo, que lute pela garantia de direitos amplos independentemente da sexualidade ou da etnia, que promova uma conscientização ambiental em perspectiva integrada. São esses os compromissos que devem ocupar não apenas o topo da agenda de todo professor (independentemente da sua área), mas de qualquer cidadão.


Publicado no Jornal A Gazeta, abril de 2015.

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