Pioneiro fantástico
Sobre Murilo Rubião, autor solitário que antecipou o realismo mágico latino-americano à margem dos grupos literários de sua época.
Mesmo para boa parte dos mais exigentes leitores, Murilo Rubião permanece um autor obscuro, desconhecido, anônimo. Alguns motivos concorrem para essa anomia: Rubião, quando publicou seu primeiro livro, Ex-mágico (1947), não encontrou par na literatura brasileira, e não seria exagero afirmar que ainda hoje não é fácil apontar no Brasil obras que sejam similares.
Seus contos foram publicados no contexto em que florescia no país uma literatura de feição evidentemente política, com causas sociais bem definidas. Sob curadoria de José Olympio e Gilberto Freyre, o Brasil conhecia Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado e Graciliano Ramos — a chamada geração do romance regionalista, de inspiração realista. De outro lado, despontava a literatura introspectiva de Lúcio Cardoso e de uma jovem que poucos anos depois se tornaria a maior escritora brasileira, Clarice Lispector. Rubião não integrava nenhum desses grupos, tampouco fazia parte da patota intelectual mineira, sua conterrânea, liderada por Paulo Mendes Campos. Murilo Rubião permaneceu um autor solitário.
Seu primeiro livro foi publicado pela desconhecida editora carioca Universal; o editor foi Caio César Pinheiro, o autor arcou com um terço da publicação e comprou mais um terço para distribuir entre amigos e possíveis leitores. Mas o Ex-mágico passou despercebido pela crítica. Em 1953, editado por Geir Campos e Thiago de Mello, Rubião publicou a plaquete A estrela vermelha, sua segunda obra. Era composta por quatro contos e foram impressos apenas 116 exemplares. Rubião só recebeu devida atenção da crítica quando, em 1965, foi lido atentamente por Antônio Cândido. Aquele que se tornaria o maior crítico do Brasil, ainda em Poços de Caldas, escreveu uma carta ao escritor mineiro se desculpando por não ter percebido sua estatura antes. A partir dessa data, Cândido ajudou a divulgar sua obra e tornar Rubião um autor menos obscuro. Em 74, Rubião foi procurado pela editora Ática, que propôs a publicação de um novo livro. O Pirotécnico Zacarias foi publicado com 30 mil exemplares e, para surpresa do autor, esgotado no primeiro ano. É até hoje o livro mais vendido de Rubião.
Murilo Rubião escreveu 55 contos, excluiu de sua obra 18 textos e publicou os outros 33. Sempre em busca de mais clareza e contenção, durante toda sua vida reescreveu obsessivamente os mesmos 33 contos e publicou com alterações em novas edições. Todos os 33 contos publicados iniciam com uma epígrafe bíblica, o que muitas vezes torna a história ainda mais enigmática. Uma das anedotas que ilustram o processo cuidadoso de escrita do autor inicia-se na ocasião em que Murilo Rubião e Paulo Mendes Campos participavam de uma festa na casa do pintor Lasar Segall, em 1945. Segundo o cronista, Rubião havia se ausentado durante um bom tempo, até que reapareceu trajado de pijama e roupão, pediu desculpas porque precisaria passar a noite acordado com a luz da mesa acesa. Em seguida, anunciou que escreveria um conto. O conto se chamava "O convidado" e ficou pronto 26 anos depois.
Um dos contos do autor que mais chama a atenção também demorou alguns bons anos para ser concluído — trata-se de "Teleco, o coelhinho". Como uma espécie de Proteu, Teleco é um coelho cinzento que se transforma em outros inúmeros animais ao longo do texto, narrado por um narrador-personagem. O conflito narrativo se apresenta quando Teleco deseja se assumir como homem e se autodenomina Barbosa. O conto tem um final tão surpreendente quanto misterioso. Quem quiser se iniciar na obra do escritor mineiro, eis uma ótima porta de entrada.
Segundo o próprio autor, duas influências são fundamentais em sua obra: a Bíblia, já citada, e Machado — de Memórias Póstumas, especialmente. A bibliografia crítica de Murilo Rubião não é vasta, mas tem aproximado muitas vezes sua obra dos textos de Kafka, apesar de Murilo só ter conhecido o autor tardiamente, nos anos 60, quando viveu na Europa. Na América Latina, sua obra tem paralelos com os textos do argentino Julio Cortázar e do colombiano Gabriel García Márquez. Assim como o também pouco lido autor uruguaio Felisberto Hernández, Murilo Rubião antecipou o realismo mágico amplamente divulgado durante o chamado Boom da Literatura Latino-americana. Este ano comemoramos o centenário do autor e nenhum presente pode ser melhor do que a sua leitura. Vamos aos livros.
Publicado no Jornal A Gazeta, novembro de 2016.
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