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artigo2017

Por que a democracia necessita das humanidades

A partir de Martha Nussbaum, sobre a substituição de uma educação para a democracia por uma educação para o lucro.

"Estamos em meio a uma crise de enormes proporções e de grave significado global" — esta é a primeira frase do livro Sem fins lucrativos, da professora Martha Nussbaum (Universidade de Chicago). Trata-se, mais exatamente, de uma crise mundial da educação e, como consequência, do futuro da democracia. E apesar de a própria noção de democracia, no contexto de uma discussão evocada pela acadêmica norte-americana, ser questionável, inúmeros argumentos são pertinentes e merecem ser mencionados. A partir de pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Índia, o texto desenvolve a tese de que os países estão descartando as competências consideradas inúteis para o desenvolvimento da nação a fim de se manterem mais competitivos no mercado global. Na prática, isso significa a substituição de uma educação para a democracia por uma educação para o lucro. "Progredir", diante de um ponto de vista em ampla difusão, significa aumentar o Produto Interno Bruto per capita, e esse tem sido um critério fundamental na corrida global pelo desenvolvimento. Igualdade e distribuição de renda, estabilidade democrática, qualidade das relações raciais e de gênero, por exemplo, não fazem parte nem da planilha nem da agenda.

A educação para o lucro dispensa uma percepção sofisticada e crítica e potencializa a ignorância, porque a estupidez moral é necessária para executar programas de desenvolvimento econômico que ignoram as desigualdades sociais. Nesse contexto, as artes, a literatura e as humanidades, de modo geral, são desprezadas por uma educação para o crescimento econômico. Por isso mesmo, em todo o mundo, elas estão sendo minimizadas e eliminadas. Trata-se de uma demanda de mercado, de Estado, e da sociedade. Os pais, sejam americanos, indianos ou brasileiros, por exemplo, orgulham-se de ter um filho na faculdade de tecnologia, administração ou negócios, mas se envergonham do filho que estuda música, sociologia ou literatura. Rabindranath Tagore, Nobel de Literatura em 1913 e educador, pensando o contexto da guerra, escreve em Nationalism que a burocratização da vida social promovida por uma educação desenvolvimentista insensibiliza a imaginação moral das pessoas, levando-as a cometer as maiores atrocidades sem sentir nenhum remorso. A questão de Tagore permanece atual: como criar uma cultura da discordância?

A obra de Nussbaum argumenta por uma pedagogia socrática, isto é, da autonomia criada pelo exercício da argumentação. Para Sócrates, a democracia é um cavalo lento que precisa ser incitado para que desperte; seria justamente a competência argumentativa a melhor maneira de acordá-la. Em resumo, o que aprendemos a propósito dessa competência nos diálogos de Platão é que o conhecimento nasce de um acontecimento real que precisa ser questionado. O questionamento, por sua vez, é sempre dialógico. Nesse processo de construção e avaliação da verdade, a argumentação é instrumento de autonomia.

Segundo a obra de Nussbaum, interessa a uma educação para a democracia (e não interessa à educação para o lucro): a capacidade de raciocinar, examinar, refletir e debater problemas políticos que afetem a nação; a capacidade de reconhecer seus concidadãos como pessoas de direitos iguais, independentemente de raça, religião, gênero e orientação sexual; a capacidade de se preocupar com a vida do outro e de compreender o que as diferentes políticas significam como oportunidades e experiências dos diferentes tipos de concidadãos e pessoas de outras nações; a capacidade de julgar criticamente os líderes políticos, com compreensão da conjuntura histórica; a capacidade de pensar no bem de modo não restrito ao contexto de seu próprio grupo social; e a capacidade de perceber seu próprio país em um contexto global que exige reflexão complexa e transnacional.

A cidadania necessita de um grande conjunto de informações, isto é, de conhecimento factual. Essas informações podem ser encontradas em livros, apostilas e na internet. Mas o acúmulo dessas informações é insuficiente, a cidadania exige mais. Diante disso, cabe à educação para a democracia ensinar como a história é construída a partir de uma disputa de narrativas que precisam ser avaliadas e comparadas. É preciso criar condições para que haja o questionamento da verdade e da diferença de poder, de oportunidade e do lugar de subalternidade de grupos minoritários. A capacidade de avaliar as "provas históricas, de utilizar os princípios econômicos e de raciocinar criticamente a respeito deles, de avaliar relatos de justiça social, de falar um idioma estrangeiro, de compreender as complexidades das principais religiões do mundo" são exigências para a manutenção da democracia que estão especialmente associadas às humanidades e permanecem ameaçadas.


Publicado no Jornal A Gazeta, 2017.

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