Samba de afetos
Uma resenha-poema sobre "Uma história do samba", de Lira Neto, e um adeus a Mãe Beata de Iemanjá.
Uma história do samba, de Lira Neto, remete-nos a um Brasil que assume o conflito e a diferença como dimensões da vida, o poder e a cisão como cambiantes, a existência como dialética. A polêmica e a disputa transformadas em estribilhos. José Espinguela, Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Ismael Silva, Sinhô, Hilário Jovino Ferreira, João Pernambuco, Carlos Cachaça, Cartola, Noel, Lamartine Babo, Paulo da Portela, Antônio Rufino, Caetano, Bide, Marçal, Tia Bebiana, Tia Celeste, Tia Dadá, Gracinda, Perpétua, Perciliana, Veridiana, Tia Ciata. E por aí vai. Brasil profundo, que civiliza com canto, afeto, prato-e-faca, pandeiro, versos, pernada, rasteira, cerveja, cavaco, farofa e marafo. Brasil da esquina, do quintal, do boteco, da cozinha e do kafuá. O Brasil que se resolve sem palavras de ordem e busto de prata.
A história do samba é a história de um Brasil de fato, que vestiu terno e sapato para dançar o miudinho. De um Brasil que toca aguerê de Oxóssi, ilú de Oiá, ijexá de Oxum, adarrum, alujá, runtó e opanijé de Obaluaiê. Brasil que faz da festa, fresta; da canção, munição; da palavra, um tiro. Corpo indócil, inquieto, malandro. O Brasil que não se dobra, negocia; não cede, troca. O Brasil profundo que tem Exu de frente, Ogum e Odé na retaguarda, arco, flecha e punhal. Braços dados com Nanã, nossa senhora; e Oxalá, nosso criador. O Brasil que comunica, compreende e nunca oferece a face. Porque o Brasil profundo só é ekedi de mãe de santo, cavalo de orixá e cambono de preto-velho.
O Brasil profundo troca figurinha com Villa-Lobos, mas não cede à domesticação, grava com Stokowski, mas sabe que batuta à vera é aguidavi de atabaque e àtòrì de egungun. Defende um trocado como dá, paga conta com samba, com jogo do bicho, vende parceria para pagar aluguel e violão. Exotismo é o escambal. Pitoresco é a miséria. O Brasil profundo precisa do pandeiro de João da Baiana e dispensa a assinatura de Pinheiro Machado, mistura banjo e cavaquinho, jazz, maxixe, lundu e assina a autoria. O Brasil profundo não pergunta o sobrenome de família, pergunta pela nação. É jeje, bantu, nagô, catimbó, mina, xangô, babassuê, pajelança, toré e jurema.
Sem origem única, gestado aqui e ali, na Praça Onze, Pequena África, Oswaldo Cruz, Estácio, na Senador Pompeu, no subúrbio, no morro carioca, no Recôncavo da Bahia, no Paraguaçu, em Cachoeira e Santo Amaro. Assim é o samba, criação coletiva, conflitiva e democrática. Retrato de devoção, respeito, paixões e preconceitos. O samba é desobediência do corpo que não se curva. É o tan tantan tan tantan transfigurado em bum paticumbum prugurudum, como já disse Ismael Silva.
O texto de Lira é a palavra-cicerone que conduz, tal qual Virgílio, por pecados, biografias, imagens e conflitos, sons e cores, com sabores grandiosos. E se para Dante o inferno se apresentou como problema a ser evitado, para este leitor, os domínios de Elegbará, isto é, o corpo, o samba, a rua, fazem deste recinto a melhor morada. Que venham os próximos dois tomos, Lira Neto. Aguardaremos sedentos.
Esse texto é para Mãe Beata de Iemanjá, que nasceu em Cachoeira, na Bahia (terra que escolhi para viver), e nos deixou no último 27 de maio, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Ao lado de Menininha, Aninha, Senhora, Olga de Alaketu, sem dúvida, Beata foi uma das grandes ialorixás do Brasil, e fez par com as Tias Baianas amplamente citadas por Lira e mencionadas aqui, porque foram, afinal, a materialização do afeto, da sabedoria, da militância e do segredo. Que os orixás confortem os filhos do Ilê Omiojuarô.
Publicado no Jornal A Gazeta, janeiro de 2017.
Continua em
- artigo2020
Samba, teu nome é uma reza
Uma breve história do carnaval e da origem afro-brasileira do samba, e sobre os sambas-enredo que elegeram Marielle Franco como símbolo.
- artigo2023
A caixa preta do samba enredo
Sobre a mercantilização e a opacidade dos critérios de julgamento do samba-enredo nos concursos de carnaval.