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Samba, teu nome é uma reza

Uma breve história do carnaval e da origem afro-brasileira do samba, e sobre os sambas-enredo que elegeram Marielle Franco como símbolo.

Como nos lembra a famosa música de Jorge Ben Jor, em "fevereiro tem carnaval". E como toda festa popular, o carnaval tem uma história com sentidos e significados originários, mas que são constantemente atualizados na sociedade. A festa, em grande parte, é tributária às comemorações advindas da Antiguidade — uma das hipóteses é que o carnaval seja um parente distante das Sacéias, uma celebração babilônica. A questão é que, durante a Idade Média, a festa tomou ares cristãos. Da forma como entendemos hoje, ela estabelece uma relação direta com o jejum quaresmal. A etimologia da palavra ajuda a entender essa vinculação: "carnaval" vem do latim carnis levale, que significa retirar a carne. O conflito entre a Quaresma e o Carnaval foi retratado em um famoso quadro de Pieter Bruegel.

Já no século XI, era comum que nos carnavais medievais os homens se fantasiassem de mulheres e saíssem pelas noites se fartando de comidas e bebidas. Durante o Renascimento, no século XVI, a popularização da commedia dell'arte e, como consequência, a sofisticação das fantasias, adereços e a ordenação do desfile contribuíram para a formatação disso que conhecemos hoje como carnaval de escola de samba. Mas entre uma coisa e outra tem muito recheio: cucumbi, festa de Nossa Senhora do Rosário, ranchos, etc. A história está longe de ser clara, linear e bem comportada. Uma coisa, todavia, é incontornável: o ingrediente final e mais fundamental do carnaval veio da cultura africana.

Entre os séculos XVI e XIX, o Brasil recebeu aproximadamente 5 milhões de africanos escravizados. A escravidão foi o mais importante e lucrativo negócio do mundo moderno. Foi às custas do extermínio de inúmeras pessoas que se edificou o Brasil. Quem quiser conhecer mais o assunto, o livro recém-lançado Escravidão, de Laurentino Gomes, é um ótimo início. Apesar de todo poder destrutivo da instituição escravagista, os negros africanos trazidos para o Brasil encontraram diferentes estratégias de sobrevivência — física e cultural. Sua sobrevivência se deve principalmente aos modos de resistência, negociação, adaptação e sincretismo.

Do outro lado do Atlântico, os africanos bantus, da região do Congo e de Angola, trouxeram ritmos que originaram o samba — ritmos como o cabula, o congo de ouro, o samba de caboclo, todos oriundos da África Central — e vale o adendo: podem ainda hoje ser ouvidos em terreiros de candomblé como o Nzó Musambu riá Kukuetu (Terreiro de Mãe Néia), no Bairro de Fátima. Somou-se a essa riqueza rítmica uma instrumentação de origem ibérica, como o cavaquinho e o violão. E pronto, eis a receita do samba. É importante sublinhar que o samba se tornou, no Brasil, um complexo cultural fundamental para a compreensão da nossa identidade. Com o samba se festeja, com o samba se lamenta e em torno do samba criam-se laços comunitários e identidades.

Em resumo, mais do que um ritmo ou um estilo musical, o samba se tornou um aglutinador de comunidades. As escolas de samba são os melhores exemplos. Foi nas agremiações, candomblés, grupos de capoeira que, historicamente, a comunidade negra brasileira reorganizou os laços de familiaridade e pertencimento destruídos pela escravidão. Por isso mesmo, o desfile das escolas de samba não deve ser visto como uma festa despretensiosa e puramente de entretenimento. É festa, sim, mas é sobretudo um modo de permanência, resistência e civilização.

Nos últimos anos, a questão política transcendeu a abordagem difusa e tomou ares de contestação muito bem definidos. Em 2019, a Mangueira não tangenciou, elegeu Marielle Franco como um dos símbolos da proposição de um olhar inaugural sobre um Brasil historicamente construído sobre o signo da opressão. Este ano, o samba, mais uma vez assinado por Manduca Cuíca e outros, é ainda mais direto: "Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem messias de arma na mão…" — e não será um canto isolado, vide o samba da Portela: "Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo, nem se curva a capitão…". Não entende quem não quiser, a avenida vai dar o recado.

Há um mito yanomami que narra o fim do mundo como resultado de um desencantamento da vida. Aos poucos os homens se esquecem da dimensão sagrada e encantada do mundo, a consequência disso é a queda do céu. Este ano, o grupo especial do carnaval carioca será mais uma vez o centro das atenções em todo o Brasil. Munidas de suas baterias, fantasias, alas, alegorias, samba e suor, nos dias 23 e 24 de fevereiro, as escolas de samba farão mais uma vez o esforço de sustentar o céu. Alagbês iorubanos, kambondus bantus, pejigans daomeanos encarnarão ritmistas; ekedis, muzenzas e vodunsis tomarão de empréstimo corpos passistas e o céu se elevará sobre nossas cabeças com o axé dos inquices, orixás, voduns, pretos-velhos, caiçós e caboclos. Na avenida, a Beija-Flor evocará Exu, a Viradouro cantará Oxum, a Grande Rio chamará Oxóssi, os caboclos serão evocados pela Portela… E assim será, no amor e na guerra, o desfile como preâmbulo de um ano que exigirá, companheiros, de "peito aberto e punho serrado", o afeto de Oxum nas trincheiras de Oxóssi.

Bom ano e boa festa para todos nós.


Publicado no Jornal A Gazeta, fevereiro de 2020.

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