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artigo2015

Uma legião de Mário de Andrade

Sobre a dualidade constitutiva de Mário de Andrade e seu projeto, nunca plenamente concretizado, de abrasileiramento da arte.

Mário de Andrade se metamorfoseou a vida inteira, exaustivamente se transmutou até que o coração, ora lírico e encantado, ora crítico e implacável, parou. Como o homem que se identifica como legião ("porque somos muitos"), Mário — contista, professor, músico, ensaísta, etnólogo, "poeta-ariel", "burguês-caliban" — escreveu: "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta. Mas um dia, afinal, me encontrarei comigo." Suas biografias indicam que os encontros foram eventuais, mas a procura incessante.

Meu primeiro contato efetivo com Mário de Andrade foi no primeiro ano da faculdade de Letras. Lembro-me da leitura do "Prefácio Interessantíssimo", que introduz seu livro Paulicéia Desvairada (1922), entre idas e vindas de ônibus na orla de Camburi. A força daquele texto, a metalinguagem crua, vívida, convocava-me a pensar sobre questões que ainda não me abandonaram. O inconsciente como lugar privilegiado da criação poética, a arte não como representação da natureza (mímese), mas como deformação ou ainda ampliação de mundos possíveis, a liberdade no uso das palavras, a leitura que "não interessa a olhos mudos". Todas as questões suscitadas por uma força que intimidava. A linguagem pulsante era violenta.

O "Prefácio Interessantíssimo" foi minha primeira leitura impactante do poeta, e o choque entre o impulso lírico, vertiginoso, e a inteligência crítica e contundente me aproximou porque fez com que reconhecesse em mim, no período de formação, essa bivalência, a princípio represada, como uma esquizofrenia possível, produtiva e bem-vinda. O contato com a obra de Mário se intensificou com a leitura de Macunaíma (1928). As relações entre os elementos nacionais e o contexto universal, a cultura erudita letrada e a cultura popular, a vanguarda e o tradicionalismo são pares de oposição que atravessam sua obra e somam-se ao longo do tempo a relações pessoais e debates políticos não menos contraditórios.

Mário, como é sabido, foi a figura central do modernismo brasileiro. O programa modernista definido pelo poeta afirmava que a nacionalização da arte e da cultura era o único meio de assegurar a modernização da cultura do país. O objetivo de Mário, em última instância, não foi concretizado plenamente. Tratava-se de introduzir o Brasil, "diversificado e, ao mesmo tempo, inteiriço, dotado de fisionomia própria", no concerto internacional das nações. Se é verdade que a música popular e até as artes visuais foram introduzidas com mais ou menos sucesso, é verdade também que a literatura está longe disso. Sobre o assunto, que permanece uma urgência — vide conferência proferida pelo professor Silviano Santiago, na Ufes, no último 2 de março —, Mário de Andrade escreveu: "abrasileiramento do brasileiro não quer dizer regionalismo nem mesmo nacionalismo = o Brasil para brasileiros. Não é isso. Significa só que o Brasil pra ser civilizado artisticamente, entrar no concerto das nações que hoje em dia dirigem a Civilização da Terra, tem de concorrer pra esse concerto com sua parte pessoal, com o que singulariza e individualiza, parte essa única que poderá enriquecer e alargar a Civilização".

O que aprendemos com Mário e relembramos com Silviano recentemente é que, depois de um século de elaboração dos Retratos do Brasil — que começam efetivamente com Euclides da Cunha, atravessam Mário, Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro, Caio Prado até desaguarem em Guimarães Rosa —, é necessário encontrar estratégias para a real presentificação do Brasil no cenário internacional.

Foi Anita Malfatti quem apresentou a arte moderna a Mário de Andrade. A relação de amizade entre os artistas foi duradoura e ambígua, como não poderia deixar de ser. Em carta a Prudente de Moraes, neto, Mário faz discreta alusão à paixão não correspondida de Anita por ele. Mais tarde, Anita declarou por escrito essa paixão. Sabe-se que o amor não se concretizou nesses termos, mas tal era a amizade de um pelo outro que em muitos momentos Mário saiu calorosamente em defesa da amiga. O episódio mais conhecido foi quando Monteiro Lobato fez críticas terríveis à exposição de 1917.

A influência de Anita foi decisiva no projeto estético de Mário de Andrade. O expressionismo apresentado por ela aglutinou-se com propostas das vanguardas francesa, alemã e italiana, a poesia de Whitman, a filosofia católica presente na sua formação primária, as incipientes leituras de Freud, e essa amálgama travou um duro embate, na obra do poeta, com os chamados passadistas. A obra de Mário de Andrade evidenciou ao mesmo tempo os elementos instintivos que vivificavam a arte, presentes no expressionismo, e a preocupação construtiva e a contenção formal da escola de Le Corbusier.

Antes de Drummond e João Cabral de Melo Neto, Mário já defendia que a dimensão expressiva da arte deve respeitar um princípio de contenção formal e que o exercício do artista nunca deve ultrapassar as necessidades da arte. No ensaio "A escrava que não é Isaura" (1925), Mário afirma que todo poema é inicialmente lírico, "estado afetivo sublime — vizinho da sublime loucura", uma força descontrolada, grito do inconsciente, mas que por fim deve guardar também o máximo de crítica para assegurar o máximo de expressão. Sua teoria estética tensiona natureza e arte, forma e conteúdo, inspiração e crítica.

Como já foi dito, a dualidade é a marca da vida e da obra de Mário. Manuel Bandeira, seu principal interlocutor, definiu certa vez o amigo da seguinte forma: "um sujeito em que a acomodação poética se debate no círculo de ferro de uma inteligência perpetuamente insatisfeita". O tratamento da questão da brasilidade por Mário de Andrade é um dos pontos mais complexos de sua teoria da arte. Para compreendê-lo é preciso estabelecer elos entre os conceitos de moderno, nacional, popular e folclórico. Seu Ensaio sobre música brasileira (1928) discute essas e outras questões e deixa claro como Mário, para introduzir um novo elo em sua teoria estética, parece focar não mais nas convicções vanguardistas e importadas, mas na pesquisa etnográfica do folclore brasileiro.

O livro Eu sou trezentos — Mário de Andrade: vida e obra, de Eduardo Jardim, lança luz a essas discussões, apontando detalhes relevantes e comentando com destreza seus textos mais significativos. A relação de Mário com o catolicismo, seu rompimento com Oswald de Andrade, seu conceito de Desgeografização e Tradicionalização, a crítica revisão que o poeta faz nos anos 40 do movimento modernista são exemplos das diversas discussões evocadas por Eduardo Jardim. A pesquisa do professor Eduardo — também autor de Hannah Arendt: pensadora da crise e de um novo início — acabou de ser publicada e, para os interessados nos temas chamados aqui, é um texto luminar.


Publicado no Jornal A Gazeta, março de 2015.

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